Cidades
Crian�as que vivem no lixo
A reportagem da Gazeta de Alagoas visitou o antigo lixão de Maceió, no bairro de Cruz das Almas, na tarde da última quarta-feira, e flagrou o que a propaganda oficial dizia não mais existir desde o seu fechamento: crianças escalando a montanha de entulhos acumulados ao longo de quatro décadas. A garotada juntava cacarecos para revenda pelos familiares em troca de parcos reais. Monitorados por centenas de urubus acostumados aos ?nutrientes? do que nossa sociedade sempre descartou, dois garotinhos, um de oito e outro de nove anos, fardados como se fossem operários da construção civil, correram na direção da lente da digital empunhada pelo repórter fotográfico Ricardo Lêdo. Maltrapilhos, confessaram ter chegado ao lixão muito cedo. Moradores estão esquecidos Sete meses depois da desativação do lixão que funcionou durante 42 anos, milhares de moradores da Vila Emater 2 não mais acreditam nas promessas de substituição de seus casebres por imóveis de alvenaria. Inseridos em diversos cadastros feitos pela municipalidade, sonham com o saneamento básico capaz de livrá-los do esgoto a céu aberto tão nocivo à criançada da comunidade. ?Já coloquei meu nome em muitos cadastros da Prefeitura. Já ouvi muita promessa. A última do Cícero Almeida [prefeito de Maceió]. Será que um dia a gente vai acordar sem ter de pisar no esgoto??, questiona-se Eliene da Silva, 49 anos de vida, 20 dos quais dedicados à cata de cacarecos no lixão ao lado da comunidade composta por 250 casebres. Documento proíbe catadores O lixão de Cruz da Almas, vergonhoso cartão-postal de Maceió, deveria ter sido, literalmente, fechado aos catadores de entulhos. É o que determina a Política Nacional de Resíduos Sólidos, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva meses atrás. O documento prevê multa ao município que permite a continuidade da degradante atividade. Na prática, não há qualquer obstáculo à presença de adultos e crianças que chafurdam no insalubre amontoado, antes e depois da passagem dos tratores da empresa responsável por sua recuperação, que prevê a compactação dos detritos sobre os quais nada será edificado. ?É proibido entrar, meu nobre?, alertava à Gazeta de Alagoas o solitário guarda municipal.