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O �ltimo toque de recolher

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Tradicional, polêmica, amada por uns e odiada por muitos, a Feira do Passarinho, que durante quase um século tornou-se a principal referência do bairro da Levada, e um dos locais mais conhecidos de Maceió, está saindo de cena. Há poucos dias, comerciantes foram removidos e máquinas pesadas demoliram barracas, abrindo passagem para o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), que se anuncia para breves tempos. A remoção do comércio livre ao logo dos trilhos, por onde o velho trem tinha que pedir passagem, abriu o que pode ser o último capítulo de uma história recheada de personagens e peculiaridades, cantados em versos e prosas, e cuja fama até ganhou espaço em noticiários e programas de variedades em rede nacional de televisão. Ali as pessoas se acostumaram a comprar e vender de tudo, com a facilidade e os riscos do comércio informal. Ouro, prata, bugigangas, ferramentas, colher de pedreiro, veneno, eletroeletrônicos, CDs e DVDs piratas, aparelhos de celular, som de carro, bicicletas e até armas e drogas, adquiridos com a mesma facilidade com que são repassados, no movimento de troca e venda da feira livre ? quase sempre livre, também, de fiscalização de regras de consumo. ?QUEM TE VIU, QUEM TE VÊ? Sem os comerciantes e sem as barracas que se enfileiravam ao longo da linha férrea, quase roçando nos vagões da locomotiva que passa para lá e para cá, o cenário parece irreconhecível. ?Quem te viu, quem te ver?, poderia dizer Chico Buarque, se tivesse se aventurado a enveredar pelos labirintos estreitos da Feira do Passarinho, como fizeram alguns famosos, décadas atrás ? porque em tempos atuais, só se arriscaria quem tem negócio. E quem a viu em seus anos juvenis, pode muito bem completar, na visão atual: ?...Quem não a conhece não pode mais ver pra crer, quem jamais esquece não pode reconhecer?. GALEGO DO VENENO Ao longo de 52 anos e graças à maneira peculiar de anunciar seus produtos, o Galego do Veneno se tornou, sem sombra de dúvidas, a figura mais emblemática da Feira do Passarinho. Ninguém precisa pedir para ouvir seu conhecido refrão, amplificado com a ajuda de um microfone: ?Quem quer veneno? Fique na fila. Não precisa empurrar! Não rasguem minha camisa! Vou atender a todo mundo. Por favor, dinheiro trocado para facilitar o troco?. O teatrinho que virou marketing só é interrompido para o atendimento real dos esporádicos fregueses que aparecem para comprar veneno de matar rato. Foi assim que ele sustentou a família durante cinco décadas. ?Isso aqui é uma mãe de leite. É uma área do Centro, por onde passam as pessoas, o trem, todo mundo passa por aqui. Se está sem dinheiro, a pessoa troca, vende e consegue logo um trocado?, diz ele. ?A Feira do Passarinho não deveria acabar? O primo de Cristiano da Silva Cândido, Genival Cândido, é comerciante na área há 36 anos, e por ele, a feira não deveria acabar. ?É uma tradição. Já estava acostumado, mesmo com toda bagunça que tinha. Todo mundo sabia onde era a minha barraca. Agora, a freguesia nem sabe onde encontrar a gente?, diz ele. O barbeiro Fernando Silva não reclama muito. Seus fregueses falharam no primeiro dia, mas não demoraram a encontrá-lo. ?Estão chegando. Ainda não recuperei o movimento, mas tá melhorando. Mas se demorar muito por aqui, vai ficar difícil?, diz ele. As razões, quem explica é o freguês Floriano Peixoto, comerciante do Centro, frequentador assíduo da Feira do Passarinho. ?Aqui nessa barraquinha de lona, é muito imprensado, e não tem como chegar com a moto. Acho que a feira não deveria acabar. Só frequenta quem gosta?, defende. Lugar ganhou fama duvidosa O comércio farto e fácil, sem burocracia, mas também sem garantia nem procedência, trouxe mais fama para a feira ? esta, nada lisonjeira ? embasada na origem duvidosa dos produtos, que abastecem o comércio local e movimentam negócios no ?balcão? dos trilhos, e que tornou a Feira do Passarinho mais conhecida como Feira do Rato. Não demorou muito, e a Feira do Passarinho foi perdendo a sua característica bucólica, e ganhando ares de submundo, com todas as suas mazelas: sujeira, insegurança, desconfiança, fedentina, insalubridade, riscos diversos. ?Isso aqui era uma favela no Centro da cidade. Ninguém aguentava mais o mal cheiro de fezes, de droga, de fio queimado. Eu pedia todo dia a Deus para tirar isso daqui?, diz a comerciante Marinalva Nascimento, do Mercado de Artesanato. Na sua avaliação a feira já deveria ter sido desativada há mais de 30 anos, desde quando começou a se transformar num reduto de contraventores de todas as espécies. Projeto prevê estação de transbordo No projeto de requalificação do Centro, que se aproxima da região do mercado, a nova roupagem da antiga Ceasa contempla também uma moderna estação de transbordo, que impulsionaria o movimento no local, com o vai e vem de passageiros do futuro VLT e dos ônibus que passarão pela estação. Mas o que está sendo executado no momento é um projeto emergencial para abrigar os comerciantes que tiveram que ser removidos das margens da ferrovia na semana passada. E quando eles chegarem por lá vão encontrar um cenário bem diferente do que está no projeto. Embora o secretário de Planejamento, Márzio Delmonim, afirme que a construção dos boxes siga o modelo definitivo, admite que não dá, neste momento, para cuidar de toda a infraestrutura que estava prevista.

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