Cidades
Urbaniza��o melhora a vida de comunidade
Zoraide dos Santos chafurdou durante três décadas na imundície ao redor de barraco no complexo de favelas do Dique Estrada, em Maceió, onde criou quatro filhos. Preparava-se para abreviar sua sofrida vida na penúria quando a filha mais velha ordenou que arrumasse imediatamente os trapos para mudança a um dos 240 apartamentos edificados do outro lado da avenida que margeia a Lagoa Mundaú. ?A vida está muito melhor do lado de cá. Não tem lama no chão, não pinga água na cabeça da gente quando chove. Fecho a porta e durmo em paz. Estamos mais seguros. Só não tem quem aguente o calor durante o dia?, conta a aposentada, cujo minguado salário também supre parte das necessidades alimentícias de duas de suas netas, adultas, mas desempregadas. Sem-teto se mudam para favela Quando as autoridades espalharam a informação de que o Projeto Integrado de Urbanização da Orla Lagunar resultaria no fim da favela do Dique Estrada, centenas de sem-teto se mudaram para a beira da lagoa, na esperança de ganhar a casa própria. O secretário municipal de Assistência Social, Francisco Araújo, reconhece: o projeto de urbanização não conseguiu conter a construção de novos barracos. ?Com o projeto de urbanização, dava-se a entender que a favela seria reduzida. Na prática, isso ainda não aconteceu. Chegou mais gente por lá. É a verdade?, reconhece o secretário. ?Muita gente do interior do Estado e da capital também correu ao Dique Estrada quando soube do cadastro que tinha por finalidade a distribuição das residências?, emendou o gestor público. ?Todo dia nasce favela em Alagoas? Engenheiro civil com quatro décadas de experiência profissional, o paraibano Neilton Nascimento, atual secretário de Habitação de Maceió, ratifica a informação do colega Francisco Araújo, quanto à duplicação de alguns dos barracos da favela do Dique Estrada. ?A verdade é uma só: todo dia nasce favela no Estado de Alagoas. Ali [na beira da Mundaú] não seria diferente?, sentencia. Neilton Nascimento chegou à capital alagoana em 1974, quando havia uma ou duas favelas em Maceió. ?Os cenários de miséria eram pouquíssimos. Infelizmente, as políticas públicas de lá para cá não acompanharam as necessidades do cidadão no interior e também não melhoraram a infraestrutura para quem se deslocava à capital?, observa o secretário. Governo planeja fazer mais um cadastro após término de obras Ângela Paim acredita que a migração do interior do Estado à favela na beira da lagoa é um dos principais fatores para explicar o aumento da demanda habitacional daquela região. Neste caso, o governo planeja fazer mais um cadastro, logo após à entrega das 1.181 unidades vinculadas ao Projeto Integrado de Urbanização da Orla Lagunar. A ideia é utilizar o levantamento para novo projeto habitacional, cuja viabilização depende da captação de recursos junto ao governo federal. ?Talvez por não flexibilizar o cadastro atual, tenhamos enfrentado problemas como as invasões ocorridas nos apartamentos e nas casas do Santa Maria?, completa, referindo-se aos novos favelados que insistem em ocupar os imóveis que já têm ?donos?. Moradores vendem residências Rosineide da Silva, 42, é uma das marisqueiras que deixaram a orla da Lagoa Mundaú e se mudaram para uma das 1.458 casas do Conjunto Cidade Sorriso 1, construído no Benedito Bentes pela Prefeitura de Maceió. A satisfação do endereço de alvenaria logo daria lugar à tristeza da falta de recursos para o sustento da família de quatro pessoas. ?Na beira da Mundaú, a gente não passava fome?, recorda. Quem levou à equipe de reportagem à casa de Rosineide foi sua filha caçula, Renata da Silva Cândido, de 9 anos, minutos depois de descobrir que ali estávamos para entrevistar algum morador egresso da região lagunar. ?Vamos conversar com minha mãe. Ela era marisqueira. Eita! Eu também morava lá, na beira daquela lagoa?, convidou-nos. Compra irregular não dá direito a escrituras de imóveis O secretário municipal de Habitação, Neilton Nascimento, tem conhecimento da venda de imóveis no Conjunto Cidade Sorriso 1. ?30% dos moradores oriundos da região do Dique Estrada já venderam suas casas. Não temos como negar. E geralmente só sabemos da negociação quando o comprador já está em seu novo lar?, confirmou à reportagem da Gazeta. Quem ganha o imóvel do Estado tem o seu CPF permanentemente no Cadastro Nacional de Mutuários (Cadmut) e fica impossibilitado de participar de qualquer outro programa habitacional governamental no Brasil, mesmo que se desfaça deste imóvel.