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Desabrigados ainda mendigam no Estado

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Murici ? O rio ruiu sobre a terra alagoana e o povo atingido nunca mais foi o mesmo. Seis meses depois da pior cheia de que se tem notícia no Estado, cerca de 70 mil desabrigados ainda mendigam nos 19 municípios mais afetados. Espalhados em acampamentos, casas de parentes, imóveis alugados ou de volta à beira do rio, eles não têm a menor ideia de quando as casas construídas pelo governo serão entregues. Muitos sequer sabem se terão direito a uma delas. Na agonia do flagelo, eles lembram do dia 18 de junho de 2010 como a data do dilúvio. À noite, não se via nada além da água. O ronco devorador dos rios Mundaú e Paraíba era o único e gigantesco indício do cenário que se veria no dia seguinte. O mundo deles caiu. E não se levantou até hoje. Apesar dos milhões enviados pelo governo federal, canteiros de obras ainda começam os serviços de terraplenagem e, em alguns casos, nem se tem o terreno para a construção das casas. Foram 27 mortos e 29 desaparecidos. Quem ficou, sofre e é feliz. Sentimento estranho que os sobreviventes dizem sentir. São felizes porque escaparam, tiveram chance de recomeçar. Mesmo na miséria, sem nada, eles estão vivos. Sorriem e choram. Esquecidos em acampamentos, escondidos em casas condenadas, à mercê do favor alheio, eles ainda respiram, têm fôlego para trabalhar e podem criar os filhos. Vítimas voltam a morar nas margens do rio Murici ? O antigo Centro de Murici virou deserto. Parece uma cidade fantasma daqueles velhos filmes de faroeste. Os dias agitados, de comércio vibrante, são águas passadas. Águas passadas que deixaram um rastro de destruição há seis meses. O rio voltou ao leito, a lama foi retirada, mas a cidade jamais será a mesma. As casas que restaram em pé estão condenadas ao abandono, é proibido morar nelas. Mesmo assim, algumas famílias descumprem as ordens da Defesa Civil e voltam à margem ribeirinha para morar num lugar ermo, praticamente sem vizinhos, em ruas tristes e vazias. ?No meio de cem casas aqui do povoado Floresta, só tem duas com moradores. Dá saudade da vizinhança, mas a gente nem sabe para onde muitos foram?, afirma o cortador de cana, José Cícero Adelino da Silva. Vida é desumana nos acampamentos Murici ? Após a cheia, os desabrigados do maior acampamento do Estado travam uma guerra diária em busca de água e vivem problemas irresolutos. Com cerca de 550 barracas, a comunidade flagelada da cidade de Murici enfrenta filas e troca tapas para conseguir encher os botijões nas torneiras, que são ligadas por apenas trinta minutos, três vezes ao dia. ?Teve mais uma briga feia ainda agorinha, na quadra G, um homem queria furar a fila da água e entrou na mão com outro. Teve tabefe, murro e depois um rapaz pegou um porrete pesado para meter na cabeça do cara?, contou Maria Helena da Silva. Por causa da briga, cortaram a água e ela perdeu a vez, desistiu de esperar o próximo turno de torneiras abertas e teve que recorrer a um velho barreiro da região. ?Essa água é suja, tem micróbio, mas eu vou beber e cozinhar com ela, é o jeito?. Uso de fogões pode provocar incêndios Murici ? Assim que o acampamento foi montado, uma regra ficou bem clara: é proibido ligar fogões dentro das barracas por causa do risco de incêndio. Mas as cozinhas comunitárias até hoje não foram construídas, a qualidade da quentinha entregue é péssima e a fiscalização começou a fazer vista grossa. Resultado: dezenas de famílias descumprem o alerta do Corpo de Bombeiros e têm seu fogão ligado dentro da barraca. ?É proibido cozinhar, mas eu tenho problema de pressão e um monte de doença. Se comer da quentinha, eu morro?, justifica a aposentada Maria das Dores da Conceição, enquanto observa a filha mexer o frango na panela. Perguntada se está triste porque perdeu tudo que tinha, ela responde: ?Eu estou é muito feliz porque escapei com vida e vou ganhar uma casa nova?. Sobreviventes contam histórias Murici e União dos Palmares ? Após a mais incrível história de sobrevivência da cheia de 2010, Maria Lúcia de Lima, 36, acredita estar passando por um segundo milagre. Lançada ao rio e sacudida pelas águas por mais de quatro horas sem saber nadar, a dona de casa foi arrastada de uma fazenda na zona rural, passou pelos municípios de Branquinha e Murici, apoiou-se num botijão de água, segurou num pedaço de pau e fraturou a costela para se agarrar numa árvore que estava na margem. Três pessoas caíram com ela e morreram. Passou a noite de sexta-feira enganchada ao tronco, só ouviram seus gritos no meio da madrugada. Foi vista ao amanhecer do sábado, mas estava ilhada, era impossível chegar onde ela se encontrava. Só foi retirada da árvore às 15h30 e ficou numa área improvisada, com outros desabrigados, à espera de socorro. Passou mais uma noite sem atendimento médico, veio o domingo e a água não baixava. A chegada da ambulância finalmente aconteceu às 16h30, quase 48 horas depois da casa onde ela estava ter desabado, quilômetros e quilômetros acima. Canteiro de obra não estaria empregando desabrigados União dos Palmares ? Moradores do acampamento montado numa pista de motocross em União dos Palmares denunciam que os desabrigados não conseguem trabalho nos canteiros de obra instalados para a construção de casas. ?Só estão pegando gente de fora, as empreiteiras têm o pessoal delas certo e não dão chance a gente, teve até um protesto na semana passada, já teve briga e não deu em nada?, reclama o pedreiro e pescador Luiz Delmiro. Sem oportunidade de garantir uma renda fixa para recomeçar a vida, o flagelado passa o dia todo cosendo redes para garantir o sustento da família. Do mesmo Rio Mundaú que levou tudo que tinha, Delmiro pega de volta o sustento. ?Faço tarrafas para vender e pescar uns peixes para o meu povo comer?. Embaixo da sombra de palhas de coqueiro colocadas entre uma barraca e outra, todos esperam o calor passar e se irritam com a falta de oportunidades nas obras. ?Meu marido só não está aqui porque arrumou um bico por aí. Ele é pedreiro e está revoltado, nunca o chamaram para trabalhar nesse projeto da reconstrução da cidade?, reclama Maria das Neves. Estado anuncia providências O governo do Estado divulgou, semana passada, um balanço dos investimentos realizados após a enchente e anunciou medidas para aliviar o drama dos desabrigados enquanto as casas não são construídas. Seguem abaixo alguns trechos redigidos pelo jornalista Ronaldo Lima, assessor de imprensa do Programa da Reconstrução do governo do Estado. O governador Teotonio Vilela Filho convocou, semana passada, em seu gabinete, todos os coordenadores que fazem parte do Programa da Reconstrução para uma reunião de trabalho. Vilela determinou que em cada acampamento onde estão morando as famílias desabrigadas seja construído um galpão para proteger as pessoas do sol e do calor. Segundo o coordenador-geral do Programa da Reconstrução, Luiz Otávio Gomes, atualmente estão instaladas 2.431 barracas em acampamentos provisórios, com banheiros, energia elétrica, água e posto de saúde. A Secretaria de Infraestrutura deve construir 18 galpões para serem distribuídos nas cidades atingidas. Serão quatro em Murici, três em União dos Palmares, dois em Rio Largo, um em Branquinha e outro em São José da Laje. * Com assessoria do Programa da Reconstrução do governo do Estado

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