Cidades
Esperan�a no ano que vai nascer
É tempo de bater o pó do fundo das gavetas. Final de ano chega logo e vai embora mais ligeiro ainda. Dá vontade de arrumar o guarda-roupa, pintar a casa e pensar em tudo que passou. É tempo de lembrar os sucessos e deixar os problemas para trás. Toda virada é cheia de esperanças. Foi assim no começo de 2010: expectativa de um ano festivo, com Copa do Mundo, e de bons presságios, com eleições e o avanço da economia do País. Mas o que seria um feliz ano-novo virou de cabeça para baixo as vidas de alagoanos, como os desabrigados da cheia, os comerciantes da Feira do Passarinho e os artesãos despejados do terreno ao lado do Memorial da República, em Jaraguá. Ao contrário da musiquinha que cantaram na última virada, restou pouco dinheiro no bolso (ou nenhum). Já a vontade de dar Adeus ao ano velho é ainda mais forte. Com as voltas que o mundo dá, eles perderam suas principais referências: a casa, o local de trabalho, parentes e amigos. Período teve muitas mudanças Mudanças bruscas também sofreram os artesãos do antigo Espaço Cheiro da Terra. Foi neste período entre Natal e ano-novo que os sonhos deles começaram a virar cinzas. Amanhã completa cinco anos do incêndio que destruiu todas as barracas de artesanato no dia 28 de dezembro de 2005. Depois de fundar a Associação dos Artesãos Guerreiros de Maceió e passar por dois outros pontos de venda, eles agora enfrentam uma nova mudança brusca em mais uma virada de ano. Deixaram o terreno ao lado do Memorial da República, de fácil acesso para os turistas, para o incerto mercado recém-instalado na Praça Sinimbu. ?2010 só não foi bom nesse final, agora em 2011 vai ser muita luta para pagar as dívidas?, afirma a artesã Joseane Costa. O sonho de receber uma casa em 2011 está presente nos desejos de 70 mil desabrigados da cheia que atingiu 19 municípios alagoanos. Se fecharem os olhos, na hora da virada, vão ?enxergar? um passado e um futuro bem diferentes, misturando visões da destruição com a chegada da família a um novo lar. Alagoanos estão descrentes do futuro Desde a infância pobre, a desabrigada das chuvas Tereza Maria da Silva, que vive em Rio Largo, nunca soube muito bem a diferença entre duas figuras lendárias. ?O Papai Noel pode ser o papa-figo, quando eu era criança minha mãe falava que se viesse um homem de carro me oferecer uma boneca, eu devia correr?. Ao ouvir a conversa na barraca ao lado, Valdenice Venâncio se aproxima para defender o bom velhinho. Papai Noel existe sim, eu mesmo já vi, lá no prédio dos Correios, em Maceió?, argumenta a desabrigada de 22 anos. O pedido de presente de Natal é simples. ?Queria um ventilador, porque a quentura na barraca é demais?. Apesar de acreditar no velhinho de roupa vermelha, Valdenice não tem muita fé em outras pessoas. ?Acho que os políticos não vão fazer nada por nós em 2011, porque não tem eleição. Ajudar o pobre? Agora ajude?, ironiza. Incertezas marcam o ?amanhã? de comerciantes em Maceió Dona de uma loja na Feira do Passarinho há 38 anos, a empresária Júlia Ferreira começa o novo ano com o medo de ver seu estabelecimento demolido. ?Nós pagamos todos os impostos e somos tratados como vagabundo. Eu tenho uma empresa com firma reconhecida e querem quebrar todas as nossas coisas e deixar a gente no meio da rua?. Para ela, o ano de 2010 tinha tudo para ser bom. ?Em 2011, só espero que os políticos sejam mais seres humanos com a população?. José Napoleão nunca teve loja. O seu ponto certo para vender ferramentas era em cima do trilho. Quando a locomotiva vinha era aquele alvoroço para retirar a banca e deixar algumas mercadorias no meio da linha férrea, embaixo do trem. No ano que vem, nem isso ele vai ter mais. ?É muito ruim a incerteza da mudança, aqui já tenho os fregueses certos e lá (na Ceasa) ninguém sabe como vai ser?. A barraca foi derrubada e José Carlos de Lima virou vendedor ambulante.