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Trabalhadores sem-terra d�o exemplo de agricultura

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A maniva da macaxeira se espalha embaixo do solo. Cresce, fica firme, difícil de arrancar. Tal qual a planta, o plantador cria raízes na terra semeada que um dia foi improdutiva. Acima do chão, rama a abóbora, o feijão, a batata, nasce a esperança. O milho deflora a superfície como um dedo em riste para indicar que ali tem mãos de um trabalhador. O abacaxi coroa a nobre peleja, maracujás explodem em bolhas para se amostrar junto a cajus e mangas. O laranjal floresce e exala o cheiro da reforma agrária no ar. Uma semana após denunciar a venda de lotes, a Gazeta voltou à zona rural de Messias, Murici e Branquinha para mostrar que nem só de trambiques e golpistas vivem os assentamentos do Estado. Pelo contrário, muita gente honesta irriga dezenas de tarefas com o ?suor do couro?. É o caso do agricultor Reginaldo Guilherme da Silva, 61 anos, que sofreu 17 ações de despejo, mas hoje finca a enxada no próprio torrão, no assentamento Flor do Bosque, em Messias. Agricultor: ?Quem vende lote é idiota? Diante do escândalo, parece surgir algo próximo à unanimidade no epicentro dos conflitos agrários. Pelo menos na teoria e nos discursos. Os movimentos sociais, o Incra, os usineiros, os proprietários de terra que querem reintegração de posse, o juiz da Vara Agrária, Ayrton Tenório, o governo do Estado e o Tribunal de Justiça defendem que todos os lotes vendidos ou improdutivos sejam retomados e entregues a agricultores sem-terra que querem trabalhar. Em tese, é seguir o velho ensinamento bíblico de separar o joio do trigo. Ou, para ser mais exato, lembrar de uma importante lição de Jesus. Os lotes da reforma agrária são como as sementes da Parábola do Semeador. Como escreve Mateus, no capítulo 13: ?Eis que o semeador saiu a semear. E quando semeava, uma parte da semente caiu ao pé do caminho, e vieram as aves, e comeram-na; e outra parte caiu em pedregais, onde não havia terra bastante, e logo nasceu, porque não tinha terra funda; mas vindo o sol, queimou-se, e secou-se, porque não tinha raiz. E outra caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram, e sufocaram-na. E outra caiu em boa terra, e deu fruto: um a cem, outro a sessenta e outro a trinta. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça?. Famílias lutam para conquistar posse O ex-canavieiro Antônio Sabino da Silva sabe muito bem como a vida dele mudou depois que recebeu o lote no assentamento Eldorado do Carajás, em Branquinha, em 1996. Comeu o ?pão que o diabo amassou? após a falência da Usina São Simeão, mas hoje colhe ?as bênçãos de Deus? materializadas em frutas, legumes, tubérculos e verduras. ?Minha vida melhorou bastante, Deus me livre voltar a cortar cana?, resume Sabino. Enquanto alguns ?idiotas? vendem lotes da reforma agrária, 102 famílias pelejam para conquistar a posse da terra há mais de dez anos na fazenda Bota Velha, em Messias. A simples ideia de sugerir ao agricultor José Maria Azarias que ele pode deixar o local onde mora já é tida como um desaforo. Mas a proposta indecente dele vender a terra seria uma grande desonra, uma ofensa capaz de gerar reações imprevisíveis. ?Certidão foi maquiada?, diz CPT O coordenador estadual da CPT, Carlos Lima, afirma que a terra foi considerada produtiva graças a um laudo forjado pelo Incra no ano 2000, seis anos após a falência da usina. ?Essa certidão foi maquiada, o Incra se baseia nesse laudo antigo, forjado?, critica Lima, defendendo uma reavaliação do caso. ?Mas não há, por parte do Incra, capacidade técnica, nem capacidade de inovar, o vício burocrático impede a solução do problema?. Das 102 famílias que vivem no acampamento Bota Velha, 40 estão no núcleo Santa Cruz, a segunda agrovila erguida para reforçar a ocupação dos mais de 600 hectares. Além de plantar, boa parte dos adultos trabalha numa casa de farinha erguida e administrada como uma associação. Todas as casas são de taipa, mas muito bem arrumadas, inclusive a escolinha, que recebe as crianças de 6 a 12 anos, durante a manhã, e a turma de jovens e adultos à noite. Acampamento muda para beira da pista ?Se a pessoa quer um lote para vender, não devia nem procurar. Estes que vendem estão fazendo graça para todos nós perder o que nós tem que ganhar (sic), aí a Justiça vem querer dizer que todo mundo é assim. Por causa de um errado, termina pagando cem, duzentos que querem trabalhar?, reclama Benedito Antônio dos Santos, 65 anos, que mora no acampamento Baixa Funda, às margens da BR-101, no município de Messias. Com a enxada na mão e o suor na testa, seu Benedito trabalha a terra, para, levanta a cabeça, olha o céu, pensa um pouco e fala: ?Quem compra um lote desses ainda está mais errado porque está pegando um patrimônio que é dos sem-terra?. Simples. Após ação de despejo executada no dia 6 de janeiro, o acampamento da Baixa Funda foi transferido para a beira da pista. O agricultor Santino Manuel, 49, revela que o barulho dos veículos assusta um pouco na hora de dormir. ?Faz medo de um caminhão desse sobrar na curva e vir para cima da gente?. Comissão destaca produção de assentamento denunciado Uma semana depois das denúncias da Gazeta, a assessoria de imprensa da CPT esteve no assentamento Dom Helder Câmara e conversou com os trabalhadores. O texto a seguir é resultado desses depoimentos. O assentamento Dom Helder Câmara localizado em Murici, zona da mata de Alagoas, atualmente se encontra na mídia devido à denúncia de venda de lote publicada na Gazeta de Alagoas do último domingo e as vistorias desencadeadas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). A área é acompanhada pela CPT, que sempre desenvolve atividades de formação, estimula a produção agropecuária e tem como princípio coibir as irregularidades. A área particular que estava em estado de abandono e tinha uma pequena produção de cana de açúcar foi ocupada em 1999. Após dois anos de luta e resistência morando nas barracas de lona, o Incra reconheceu que a propriedade era improdutiva e a transformou em assentamento da reforma agrária. Lá moram e trabalham 48 famílias camponesas que estão distribuídas em duas agrovilas, e cada família possui um lote entre cinco a sete hectares.

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