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Crack invade os canaviais

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O pesadelo imposto pelo consumo de crack rompeu os limites da periferia de Maceió e se instalou no latifúndio da monocultura da cana-de-açúcar alagoana. A fumaça fugaz, ao mesmo tempo efêmera, oriunda da queima da pedra, invadiu as plantações e tem consumido o juízo dos trabalhadores do setor sucroalcooleiro do Estado. A ?rapadura do cão?, como tem sido chamada, afeta a produtividade, a saúde, além do comportamento de quem se entorpece. O temor de perder mão de obra assombra quem já lida com dependentes. Fora das cercas das grandes extensões de terra, a polícia confirma que 80% das ocorrências criminais estão ligadas ao avanço da droga. O delegado regional de São Miguel dos Campos, Mário Jorge Barros, sente de perto essa realidade. Ele garante que os crimes nos municípios no entorno das usinas tiveram uma mudança de perfil. Se outrora o tráfico se resumia à maconha, hoje, o crack, que é feito a partir da raspa da cocaína, tem predominado. ?Antigamente, há uns seis anos, o maior problema era o álcool, juntamente com a maconha. Nessa época me deparei com casos de extrema violência, como esquartejamentos e agressões físicas. Hoje, a realidade comprova que é o tráfico de crack que está matando. Muitos dos envolvidos, no momento desempregados, vieram do meio rural, consequentemente do universo do trabalho nas usinas. Seja nas empresas ou nas periferias, têm se tornado viciados, depois traficantes e, por fim, vítimas dos acertos de contas?, definiu Barros. Droga mascara cansaço físico A personalidade de cada um é que vai determinar o envolvimento. Pelo menos é assim que pensa o psicólogo Danilo Della Justina, que há dez anos trabalha com dependentes químicos. Segundo conta, o aspecto social influencia, apenas, no acesso à droga. ?Quem tem mais dinheiro, vai ter mais acesso e, naturalmente, vai sentir os efeitos num tempo mais curto?, considerou Danilo. Sobre o mito do ?super-homem?, que surgiria em meio aos canaviais, o especialista faz um alerta importante. ?No início, o crack age como vitamina. O sujeito, de fato, vai ter uma sensação de força física. Isso varia de acordo com a quantidade consumida. Mas, depois, começa a vir a paranoia, que vai depender da estrutura da personalidade de cada um?, explicou Danilo. Usina já investe na prevenção A quantidade de dependentes empregados nas usinas ainda é uma incógnita. Porém, eles já são descobertos em meio aos milhares de profissionais do setor que mais emprega e gera divisas. Aos poucos os casos de fúria, provocados pelo uso ou pela abstinência do crack, têm criado um clima de incerteza e violência no ambiente de trabalho. Em outras situações, os usuários têm aparecido fracos, sem disposição, e há até registros de desmaios em pleno campo. Em Boca da Mata, na Usina Triunfo, a droga já é uma realidade para um grupo reduzido de 3 ou 4 pessoas. Ninguém sabe precisar. Mas, na semana passada, a atitude enfurecida de um dos trabalhadores do campo resultou na agressão a um companheiro de batente. A discussão quase acabou em tragédia, depois que um suspeito de ser usuário atingiu o outro com uma foice, no ombro. O ferimento levantou a suspeita de que o crack pode ser o ?vilão? de mais este caso. O problema não se tornou caso de polícia, já que a empresa resolveu a situação administrativamente, adotando medidas punitivas. Vício prejudica renda familiar Por trás da iniciativa de conhecer o universo sombrio da dependência química, há também a preocupação social com os afetados. Isso porque como os trabalhadores ganham por produtividade, além de o vício afetar a produção da empresa, atinge também a renda familiar. Conforme revelou a direção da empresa, a presença de um usuário no ambiente profissional oferece risco a ele próprio e ao convívio coletivo. ?Tememos que drogado ele tenha atitudes violentas, prejudique o trabalho e o seu próprio rendimento profissional, o que vai acabar afetando seu salário e refletindo na família. Ainda estamos engatinhando nesse assunto, mas nos esforçando para fazer os funcionários que possivelmente sejam usuários a buscar tratamento?, completou o superintendente. Lideranças da categoria ainda desconhecem o problema Para as lideranças da categoria, o tema foi recebido com surpresa. Na semana passada, o diretor de Assalariados da Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura do estado de Alagoas (Fetag), Antônio Torres, depois de procurado pela reportagem, fez uma consulta a outros sindicalistas. Na Paraíba, onde participou de um encontro com representes do Nordeste, ele constatou que o problema ainda não bateu à porta dos sindicatos. ?Procurei fazer uma pesquisa e pelo menos o pessoal com quem falei ainda não tem informação. O que se sabe é que sempre teve um ?cigarrinho? (maconha) e a bebida, mas o crack ainda não descobrimos?, respondeu Torres. Mesmo assim, ele demonstrou preocupação com as informações repassadas pela Gazeta. ?Sendo assim vamos começar a orientar nosso pessoal, porque se essa droga já está fazendo estragos na capital, imagine no interior?, conclui o sindicalista. ?Usuários não têm perfil, eles são doentes? Devido à militância na causa, com o objetivo de prevenir e tratar, Noélia Costa já reformulou o seu conceito sobre quem são os usuários de crack no Estado. ?Não tem mais perfil. O que existem são doentes, e eles estão em todas as classes, até nos segmentos profissionais?, lamentou a presidente. Antes mesmo de ser acionada pela Usina Triunfo, para ajudar na compreensão e na busca de estratégias para lidar com a situação, a professora já havia notado o aumento dos usuários. Nas clínicas com as quais mantém relação, a presença de jovens da capital e do interior praticamente se igualou. Segundo ela, a diferença é que a informação nos centros urbanos é maior. Quando fala da iniciativa da usina, ela não deixa de enaltecer a coragem dos executivos da empresa. A ?quebra do medo?, como classifica, tem um significado muito grande para a luta contra a dependência. Isto porque, além de ?jogar aberto?, os empresários começam a ver que seus funcionários não são apenas drogados, mas sim doentes.

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