Cidades
Popula��es continuam nas �reas de risco
Maragogi ? Dez meses depois da maior tragédia natural que já afligiu o Estado, os alagoanos voltam a viver a tribulação provocada pelas chuvas. Moradores ilhados, casas destruídas, morte e fugas desesperadas em busca de um local seguro são cenas de um filme de terror que não deveria ser reprisado, mas foi. A sensação é de abandono e de que nada ou quase nada foi feito para evitar que calamidades voltem a acontecer. O Programa de Reconstrução não avança, só faz garoar e, ?nesse chove não molha?, sem as casas prometidas, muitos acabaram por voltar às áreas de risco nas encostas e às margens dos rios; outros sequer foram removidos de lá. Para fechar o quadro de descaso, os municípios não fizeram a parte que lhes cabe. Apenas duas Coordenadorias Municipais de Defesa Civil (Comdecs) estavam ativas (Maceió e Atalaia) quando o céu começou a ?desabar? sobre Alagoas, há cerca dez dias. Moradores esperam por casas Jacuípe ? A sabedoria popular e a intuição salvaram o motorista Amauri José Félix de perder tudo de casa novamente por causa da enchente do Rio Jacuípe, na cidade de mesmo nome. A Coordenadoria Municipal de Defesa Civil (Comdec) não emitiu nenhum alerta de que o nível das águas subiria. ?Dizem que gato escaldado tem medo de água fria. No ano passado, eu suspendi os móveis a uma altura de um metro, mas a água subiu um metro e sessenta centímetros e perdi tudo. Dessa vez, quando vi o rio ganhando força, suspendi acima de um metro e sessenta centímetros e salvei as coisas?, contou Amauri Félix, morador de Jacuípe. Mas, muitos não tiveram a mesma a sorte e voltaram a perder tudo novamente ou o pouco que reconstruíram e compraram. A cidade ficou isolada por causa da inundação e uma parte dela sem energia elétrica. Barreiras desabaram sobre a já combalida AL-105. As águas do Rio Jacuípe tomaram as ruas centrais, alagando a principal via de acesso à cidade, a Avenida Senador Arnon de Mello. SC Solo encharcado é uma ameaça Maragogi ? O nível dos rios começou a baixar em algumas cidades na última sexta-feira. O perigo, no entanto, permanece nos grotões, onde o solo encharcado já não suporta tanta água e o risco de deslizamentos é iminente com a previsão de mais chuva. Assim como os ribeirinhos, que não dormem em razão dos rios rugindo nos fundos de casa, os que vivem dependurados no morro são filhos da mesma agonia. A ocupação de Áreas de Preservação Permanentes (APPS) e dos morros deixou de ser um problema exclusivo das metrópoles e passou a afetar as cidades interioranas de médio porte, que, impulsionadas pelo desenvolvimento econômico, tiveram crescimento populacional de 25,5%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). SC Ocupação desordenada agrava tranastornos durante temporais Maragogi ? As consequências devastadoras da invasão de uma área verde do Loteamento Parque dos Coqueirais, no Distrito de Barra Grande, em Maragogi, ocorrida ainda em 2004, começaram a ser percebidas durante as tempestades verificadas na semana passada. Casas situadas logo abaixo do aglomerado sofreram com inundações e uma enxurrada de lama e pedras tomou conta da AL-101 Norte, invadindo as moradias. ?Ninguém tomou providências contra essa invasão e o resultado foi esse. O Departamento de Estradas de Rodagem (DER) tirou dez caçambas de lama e terra daqui?, disse a moradora de Barra Grande Josilda Maria da Silva, a ?Branca?, 26 anos. No desespero, os moradores ergueram verdadeiras barricadas em frente às residências com sacos de areia para tentar conter a inundação. ?Moro aqui há 12 anos e isso nunca aconteceu. Foi aquela invasão?, culpava o aposentado Benedito Vieira da Silva, de 80 anos. SC Período anima agricultores | PATRÍCIA BASTOS - Repórter Arapiraca ? Enquanto na região Norte a chuva provoca medo na população, devido ao risco de novas enchentes, para os trabalhadores familiares do Agreste o tempo fechado é prenúncio de um período de bonança na roça. Na última sexta, quando o tempo ?estiou? um pouquinho, como fala o homem do campo, na maioria das roças, os trabalhadores preparavam a terra para plantar. ?Essa chuva é uma riqueza para a gente. É muito gostoso num final de tarde de chuva ficar olhando pela janela a terra toda molhada e a plantação crescendo?, afirma o agricultor Josmar Gonçalves Lira, morador do sítio Bom Nome. Ele afirma que a chuva tem sido uma ?benção? e dá ao homem do campo a tranquilidade de saber que terá uma boa safra. Lavradores temiam um ano de seca na região do Agreste Craíbas ? O agricultor José Emiliano da Silva, há pouco menos de dois meses, não esperava tirar muito da terra este ano. O morador do sítio Imbuzeiro, zona rural de Craíbas, afirmou que estava se preparando para um período de colheita fraca e preço baixo no feijão e no milho. ?Todo mundo achava que ia ser um ano de seca. A gente aprendeu com nossos pais que se chover no dia de São José ?19 de março ?, vai ter inverno e a safra vai ser boa. Só que este ano não choveu. A gente passou o dia todo esperando pela chuva, mas quase não tinha nuvem no céu. Quando começou a chover, eu achava que era só trovoada de verão, por isso demorei a plantar?, explica. PB Diarista reclama do valor pago no campo Arapiraca ? Se de um lado alguns agricultores reclamam da falta de mão de obra, do outro o trabalhador diarista reclama do pagamento. José Lino estava preparando terras para o cultivo de macaxeira para o patrão no sítio Imbuzeiro. Segundo ele, o pagamento de R$ 30 por dia trabalhado não é suficiente para sustentar a família. ?Se a gente tivesse trabalho todo dia, de segunda a sábado, até que dava para sustentar a casa, mesmo nos apertos, mas não é todo dia que aparece trabalho?, declarou. De acordo com José Lino, mesmo tendo poucas pessoas disponíveis para trabalhar na roça, o pagamento pela diária não aumentou com relação ao mesmo período do ano passado. ?Na verdade, se a gente não aceitar o que eles querem pagar, acaba ficando sem trabalho e sem dinheiro?, declarou. PB