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Alagoanos vivem na busca da �gua perdida

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Roberto Vilanova Personagens de Graciliano Ramos no livro Vidas Secas, Fabiano e Sinhá Vitória, existem e não são apenas duas pessoas, mas milhares. São mais de dois mil alagoanos, sertanejos residentes na divisa com Pernambuco, que ainda vivem sob o cenário descrito por Graciliano há 70 anos ? eles são obrigados a escavar o leito seco do Rio Ipanema para retirar a água do subsolo, ou, então, disputam com o lixo e animais sedentos o filete que escorre como dádiva de Pernambuco ? a sangria da barragem de Águas Belas. No Povoado Quandu, pertencente a Poço das Trincheiras, a 250 quilômetros de Maceió, o quadro se repete diariamente. O vereador Júlio Reis (PSB) jogou a toalha: ?Infelizmente não podemos negar, pois está à vista de quem quiser ver?, reconheceu. No povoado, onde o cenário se reproduz com mais originalidade, a adutora anunciada é uma miragem que surge e desaparece na mesma velocidade dos comer-ciais de televisão; o vereador socialista admite resignado: ?É, infelizmente, tudo verdade?. Personagens reais Mas entre a realidade cruel e a ficção de Vidas Secas não há diferença, exceto em que Fabiano se chama José, João, Luiz, Manoel, Severino, Pedro, Antônio ou Florisvaldo; e Sinhá Vitória é dona Maria ? de Fátima, da Luz, das Graças, de Jesus ou José. Também é dona Antonieta ou Maria Quitéria, todas vítimas do abandono e do descaso marcado pelo fato inusitado de nunca terem visto, no povoado, alguma autoridade além do prefeito. ?A situação poderia ser melhor se tivessem limpado a barragem?, admitiu o vereador socialista. A barragem que o vereador do PSB se refere foi construída na década de 1980 (governo Guilherme Palmeira), mas está abandonada. A falta de manutenção deixou a lama acumular no fundo da barragem e o lodo formou uma espécie de cobertor sobre a lâmina d?água, de modo que nem mesmo os peixes (piaus, carás, lambaris) resistiram à falta de oxigênio. ?Já fizemos abaixo-assinado, já pedimos a todo mundo, só falta pedir agora ao presidente da República, e até hoje não tomaram providência para limpar a barragem?, se queixou dona Maria da Luz, 58, sete filhos. O resto O espetáculo inusitado, com as mulheres escavando o leito seco do Ipanema em busca da água que o solo absorve rapidamente, é pior quando a barragem de Águas Belas, do lado pernambucano, não sangra. ?Este ano, graças a Deus, a barragem sangrou. Choveu muito na região?, ressaltou dona Maria da Luz. Mas não há muito o que comemorar ? a água que sangra da barragem do município pernambucano chega ao povoado poluída. O Ipanema nasce em Pesqueira, cidade do agreste de Pernambuco, e alcança terras alagoanas separando os municípios de Itaíba e Águas Belas de Poço das Trincheiras; o rio é periódico, daí a necessidade de procurar a água no subsolo. O vereador Júlio Reis cansou de dar explicação para os moradores ? e eleitores ? e decidiu engrossar as reclamações, até porque ele mesmo, residente no povoado, é vítima. ?Infelizmente, a verdade é essa. Nem mesmo a barragem foi limpa?, disse, mostrando que a limpeza da barragem custaria no máximo 20 mil reais. ?Você acha isso muito??

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