Cidades
Explos�o em esta��o deixa trauma em comunidade
São Miguel dos Campos ? Explosões e uma labareda gigante povoam os pesadelos de Maria Sônia dos Santos, 41 anos, ex-vizinha da Estação da Petrobras de São Miguel dos Campos, que incendiou no dia 23 de setembro de 2008. O neto dela, com dois anos na época, até hoje não pode ver o acendimento do fogão que corre para se esconder. O pequeno João Vítor começa a gritar e tem crises de choro quando se depara com uma queimada no canavial, cena comum para as outras crianças da região. Nesta semana marcada por dois acidentes na fábrica da Braskem, em Maceió, o pânico registrado em comunidades do Trapiche e do Pontal da Barra reacende a memória dos momentos de terror vividos pelos moradores da vila que ficava em frente à Estação de Tratamento de Óleo do Furado, em São Miguel dos Campos. Equipamentos da tubulação de petróleo e dois caminhões voaram pelos ares, os tanques lembravam vulcões em erupção, cuspindo o fogo implacável. Quatro operários morreram carbonizados. Foi um Deus nos acuda. ?Todo mundo saiu de casa, desarrumado, por dentro do mato, correndo feito louco para mergulhar no rio. Parecia um filme de terror?, conta a mãe de João, Flaviane Santos Silva, 22, grávida de oito meses do segundo filho. Moradores fazem tratamento até hoje Uma das crianças que quase morreu no rio foi Henrique da Silva, na época com 10 anos. ?Eu tava brincando de ximbra, vi o estouro, o fogo, saí nas carreiras para o rio porque todo mundo estava indo para lá. Pulei com tudo na água, não sei nadar, desci com tudo e um homem me puxou?, relata o menino, filho de Maria de Fátima da Silva. ?Eu estava em casa, deitada, ouvi a primeira zoada e, depois, veio um segundo estouro grande, até a cama subiu. Pulei, corri para fora e vi um fogo muito alto, gritei para os meninos correrem e não lembro de mais nada, desmaiei?, conta Maria de Fátima. Os moradores reclamam que nunca receberam apoio da Petrobras, nem para o socorro até o hospital, no dia do acidente. ?Muita gente está ruim da cabeça até hoje?, conta Maria de Fátima, que depende de tratamento médico e psicológico até hoje. Famílias lutam na Justiça por indenização As famílias de dois dos quatro operários mortos durante a explosão da Estação de Furado ainda lutam na Justiça pela indenização por acidente de trabalho. Os que cederam às pressões, firmaram acordos com a empresa terceirizada Norcontrol, sem verbas da Petrobras. Alguma compensação financeira pode chegar, mas os parentes sabem que a vida jamais será devolvida. ?Independente do valor da indenização, qualquer que seja, nada vai repor o que a gente perdeu. O objetivo da nossa família é fazer a Petrobras sentir que esse tipo de coisa não se faz, para que eles tenham cuidado com a vida dos outros?, afirma Emanuel Pereira Moisés, irmão de Miguel Ângelo Pereira Moisés. Morto aos 27 anos, Miguel era o único petroleiro entre as vítimas. Estatal se isenta de culpa, diz Sindpetro No caso de Miguel Ângelo, a família conta com o apoio jurídico do Sindpetro, e a batalha jurídica é mais intricada. Aberto na Justiça do Rio de Janeiro, o processo foi transferido para a Vara do Trabalho de São Miguel e teve a primeira audiência no último dia 18. Segundo a direção do sindicato, a Petrobras tenta se isentar de culpa, apontando falha humana cometida por Miguel. ?O fator humano sempre pode acontecer, mas o que leva a essa falha? A Petrobras deveria dar um curso de reciclagem de PT (Permissão de Trabalho), para o funcionário analisar os riscos, mas não deu?, cita o irmão do petroleiro. Emanuel ainda lembra que Miguel Ângelo era operador 1 e tinha assumido a supervisão, no dia do acidente, porque o responsável pelo posto faltara. ?O procedimento determina que só um funcionário com oito anos de experiência pode assumir supervisão. Meu irmão tinha quatro?. Sindicato oferece assistência a parentes O Sindpetro também ofereceu assistência aos parentes dos três operários que não eram petroleiros e às 22 famílias da vila. ?Até agora a Petrobras não gastou um centavo, movemos ação coletiva exigindo indenização e acompanhamento psicológico, principalmente para as crianças. Nem no dia do acidente, a empresa transportou as famílias. Foi o fazendeiro que fez isso, inclusive a Petrobras queria que ele expulsasse todo mundo?. A advogada do Sindpetro, Raquel Souza, informa que existe um inquérito civil público, junto ao Ministério Público do Trabalho (MPT), para se apurar a responsabilidade da empresa. ?Infelizmente ainda falta que o MPT proponha a ação civil pública?, critica. Segundo Raquel, os trabalhadores que fazem a análise preliminar de risco recomendaram a despressurização do duto Furado-Robalo, que transporta o gás de Alagoas para Sergipe. ?Indagado, o gerente de operações não soube explicar porque a medida não foi adotada?, disse a advogada, sugerindo que a despressurização significa o prejuízo econômico de ficar um dia inteiro sem enviar gás. Empresa justifica acidente Numa eventual ação, Alencar frisa que a Petrobras vai apresentar um laudo detalhado, mas ela é uma parte totalmente interessada no processo. Diante do impasse, o procurador informa que já informou ao Ministério Público Federal (MPF) sobre essa necessidade da União realizar concurso para a área. Diante das críticas e denúncias contra a Petrobras, a Gazeta procurou a empresa que presta assessoria de comunicação à organização em Alagoas para entrevistar os responsáveis sobre o caso. Após contatos por telefone e por e-mail, a entrevista não aconteceu. A resposta foi enviada por o e-mail, com o seguinte texto: ?A Petrobras, através da Unidade de Operações de Exploração e Produção de Sergipe e Alagoas, informa que o acidente ocorrido em 23 de setembro de 2008 ocorreu em decorrência do rompimento de um cabo elétrico que acionava uma válvula do gasoduto, vindo esta a abrir indevidamente, ocasionando um incêndio nas dependências da Estação de Furado, com quatro vítimas fatais.