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Passado um ano, chacina segue na impunidade

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A imagem que ocupou metade da capa da Gazeta congela um trauma alagoano. Quatro garotos sentados à beira do precipício observam quatro garotos sem camisa e sem vida, estirados lá embaixo da barreira. A quatro passos dos cadáveres, quatro policiais se fecham em círculo, sob fixos olhares juvenis. A cena tétrica imortalizou a chacina do Benedito Bentes, caso rumoroso que completou um ano ontem, na mais completa impunidade. Cinco suspeitos foram soltos, a polícia não concluiu o inquérito e a perícia não fez os exames de balística. Na foto, o abismo separa mortos e vivos, tão distantes como homicídios de ricos e pobres. Quem observa poderia estar sendo observado. Todos são meninos pobres, parentes e vizinhos dos três adolescentes e do rapaz assassinados com tiros de revólver 38 na cabeça. Mandaram deitar, antes da execução à queima-roupa. Todas as vítimas moravam no Conjunto Cidade Sorriso, área disputada por traficantes e milícias, na periferia da periferia, entre recônditos rincões do Benedito Bentes e da Serraria. Morro do Urubu. Sexta-feira, 13 de agosto. O nome do local e a data da chacina chamam a atenção, mas os detalhes do crime e das investigações assustam mais. Polícia trabalha com nova linha de investigação Após centrar os esforços na tese das milícias e não conseguir provas, a polícia começou a se debruçar sobre uma segunda linha de investigação. Esta nova suspeita aponta contra quatro traficantes da Grota da Alegria, que queriam se vingar do mais velho dos rapazes chacinados, o servente José Ricardo da Silva, 21. Segundo uma testemunha secreta, Ricardo teria provocado a ira destes suspeitos, que são indiciados em vários outros crimes, sem ter noção do perigo em que estava se metendo. Figura conhecida no Conjunto Cidade Sorriso, Ricardo era tido como farrista e mulherengo, quase sempre encontrado em bares da região. Em meio a esta vida desregrada, o servente teria se envolvido num ?desentendimento com os suspeitos de tráfico?, como classifica a delegada de Homicídios, Sheila Carvalho, que assumiu o caso em abril. O chefe de operações da Delegacia de Homicídios, Denilson Ferreira, é um pouco mais específico. ?O Ricardo teria colocado para correr da área dele uns amigos desses suspeitos?, explica. Outra suspeita a se investigar é se estes amigos tinham sido enviados ao local com algum trabalho a realizar para o tráfico. Famílias vivem luto de crime inexplicável O vazio que ficou nos parentes é tão grande como o que se observa no local da chacina. O Morro do Urubu está lá, seco, desmatado e erodido pela retirada ilegal de barro. Testemunha da morte precoce, a barreira é alheia às idas e vindas da polícia. Um vento frio lhe espalha a poeira e sopra em direção ao conjunto do outro lado da grota, onde quatro famílias vivem o luto do crime inexplicável há um ano. Do lado de cá da grota, a porta de Maria Eliana da Conceição vive fechada para esconder a visão do lado de lá, onde o filho Bruno foi morto com três colegas. ?A minha casa fica de frente para a barreira e deixo a porta fechada 24 horas porque quando olho para lá é o mesmo que ver os quatro, mortos, estirados no chão. Não tem quem aguente um sofrimento desses, ainda mais sabendo que não tem ninguém preso?, reclama a mãe, que assim como as outras três ainda tem medo de falar demais e não se deixa fotografar. Capitão PM se diz injustiçado Tão logo saiu da prisão, o capitão Paulo Eugênio começou a se articular e reunir informações, não só para provar a inocência, mas também a fim de apontar erros que a polícia teria cometido para, na opinião dele, injustiçá-lo. O militar denunciou ao Conselho Estadual de Segurança que foi usado como ?bode expiatório? e buscou outras instâncias, como o Ministério Público (MP) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), nesta jornada que pretende levar para os tribunais com pedidos de retratação e indenização por danos morais. O oficial da PM afirma que, até hoje, não sabe o motivo da prisão dele, no dia 23 de setembro do ano passado. ?Mataram quatro jovens e minha honra também foi assassinada junto. Uma desonra, o mundo se abriu para mim, debaixo dos meus pés. De setembro para cá, minha vida mudou totalmente, até hoje eu ainda não acordei. É difícil trabalhar em prol da segurança e ser vítima de uma grande violência como esta?, afirma Paulo Eugênio. Atuação de milícias ganha força com série Um dos pivôs na primeira linha de investigação, o vigilante Leonardo Francisco da Silva atuava como cineasta nas horas vagas. E a série de filmes trash Força Delta, produzida, dirigida e representada por ele, chamou a atenção dos investigadores. Para muitos, as gravações instigam a violência, com a atuação de milícias em ruas do Benedito Bentes, distribuindo porradas, ameaças, tiros e xingamentos contra ?bandidos?. Para complicar, Leonardo já tinha sido preso por outro crime, e o relatório preliminar das investigações apontava que ele podia integrar uma milícia ou grupo de extermínio. ?Nada foi provado contra mim e tenho certeza de que a polícia me destruiu, estou com meu nome sujo e com a fama podre com tudo o que eu ganhei de mídia ruim nessa história?, reclama. Diretora do IC tenta justificar inércia O Instituto de Criminalística (IC) passou quase dois meses, entre abril e maio deste ano, sem realizar qualquer exame de comparação balística por simples falta de aparelhagem. A diretora do IC, Rosana Coutinho, explica que o único equipamento disponível quebrou. O problema se agravou por causa da demora na chegada de um novo aparelho comprado com recursos da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp). ?O microcomparador balístico passou um tempo parado. Chegou um novo no final de maio, mas a comparação balística é demorada, tem de examinar todas as armas e balas?. Rosana Coutinho também informa que a demanda é grande e há muitos casos acumulados, que são examinados por ordem de chegada. O uso de duas máquinas poderia ajudar a acelerar, mas o conserto da antiga passa por licitação e não tem prazo para acontecer.

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