Cidades
Escolas p�blicas � beira do abismo
Ao invés de aprender, estudantes podem morrer a qualquer momento em dezenas de escolas públicas de Alagoas. Com as lições de Matemática e Português, eles convivem com o bê-a-bá cruel da incompetência administrativa. Entre tetos que desabam, pisos que afundam, fiações velhas que podem incendiar, pátios com tiroteios e portões furados de balas, fica difícil aprender. O Ministério Público (MP) está indignado com a situação e adota providências urgentes para impedir tragédias. A Promotoria de Justiça da Fazenda Pública Estadual começou a realizar inspeções no mês de julho e mergulhou fundo no abismo onde são jogados crianças e adolescentes todos os dias. Logo no começo do trabalho, o MP constatou que as seis primeiras escolas visitadas correm riscos de desabar, além de apresentar 82 irregularidades que estão fora da lei. Até a semana passada, 42 estabelecimentos de ensino haviam pedido socorro à Promotoria de Justiça, que deve vistoriar todos. Os diretores tinham apelado para a Secretaria Estadual de Educação e Esporte (SEE) investir em reformas e reparos, mas nada acontecia. Descalabros marcam a Adeilza Oliveira Era uma escola muito desgraçada. Não tinha telha, janela nada. Ninguém podia entrar em sala não, porque a chuva alagou o chão. Ninguém podia ficar com sede, pra não beber água da lixeira. Ninguém podia fazer pipi, porque o vaso sumiu dali. Mas era feita com lero-lero, Chã da Jaqueira e nota zero. A infeliz paródia dos versos d?A Casa de Vinícius de Morais se refere à Escola Estadual Adeilza Oliveira, na Chã da Jaqueira. A inspeção realizada pelo MP nos dias 16 e 18 de agosto destaca, entre inúmeros descalabros, que ?a água ofertada aos alunos está acondicionada em um balde plástico, do tipo usado para armazenamento de lixo, ao qual foi adaptada uma torneira. Não oferece qualquer segurança à potabilidade, e todos os bebedouros da escola estão danificados?. A chuva da última semana expulsou várias turmas de suas salas. A pior delas era o 4º ano A, da professora Cícera Brandão. Telhas foram arrancadas, muitas estão quebradas, a chuva invade, quase vinte goteiras alagam o chão, algumas passam pelas luminárias, infiltrações tomam a parede, só uma lâmpada acende, os ventiladores não funcionam e um grande fio pende solto a centímetros das cabeças dos meninos. Colégios param quando chove Fora da mira da Fazenda Pública Estadual, escolas da rede municipal de Maceió não têm aulas quando chove. Ou quando têm, deixam os alunos molhados. A Gazeta descobriu que pelo menos três delas ficaram vazias com o temporal da última quinta-feira: Maria José Carrascosa (no Poço), Ranilson França (na Levada) e Sagrado Coração de Jesus (em Cruz das Almas). Mas professores informam que o número pode ser bem maior. ?Hoje não tem aula!?, gritam funcionárias de dentro da Ranilson França para os alunos e pais que batem no portão. Com os pés ensopados, a coordenadora Nelci Teixeira mostra como a água cai pelas telhas, infiltra-se nas paredes e mina pelo chão. Na porta das salas, o alagamento se mistura à caixa de gordura, fezes de pombos, urina de ratos e ao esgoto. ?A escola deveria ser um lugar digno?, protesta Nelci. A quadra alagada e o pátio descoberto reforçam agressões úmidas. Com todas as salas à mercê da intempérie, é difícil entender como o ano-letivo pode avançar. Só neste inverno, foram quase vinte dias sem aula. Esta semana, as portas fecharam segunda, terça e quinta. Sem janelas, alunos são feridos Mas nem só a água entra. ?Já solicitei a colocação de cobogós porque o perigo de tiros é grande, a área aqui é violenta e tem tiroteios na rua?, informa a diretora Suley Barbosa. Olhares, desaforos, confusões e quase todo tipo de objeto passam pelas janelas sempre abertas. A porteira Maria José dos Santos mostra uma laranja que foi jogada para dentro da sala. ?Os maloqueiros do lado de fora também jogam pedras, de vez em quando um aluno fica ferido?. Até o tráfico se aproveita do fácil acesso às dependências, passando droga pela lacuna. Em algumas salas, professores colocam papelões, lonas e madeiras para barrar a chuva, mas quando estia, surge outro problema: o calor. O zelador Juarez Barbosa lembra que a calha de uma parte do prédio está ruim, provocando infiltrações. A estrutura velha da quadra de esportes e da piscina não suporta os dias de chuva. Com a alta da maré, a água da lagoa invade por baixo do piso. A piscina está interditada há dois anos. ?Todos nós temos medo que desabe tudo? Os deslizamentos de terra são constantes na barreira comida pela erosão que avança em direção à Escola Estadual Jarsen Costa, no Jacintinho. As salas ficam a três metros do precipício, quase penduradas no morro que pode ser visto na subida do Ladeirão do Óleo. Em suas cadeirinhas, sob o telhado comido por cupins, os alunos do 1º ano do ensino fundamental não têm ideia do risco que correm. A professora Regina Lúcia tem. ?A Defesa Civil veio aqui em 2009 e disse que estamos numa área de risco, o Estado disse ao Ministério Público que ia mudar a escola de lugar, mas não mudou?, informa Regina. ?As crianças não têm muita noção, mas todos nós, funcionários e pais, temos medo que desabe tudo. Quando é tempo de chuva, ninguém relaxa?, completa a merendeira Terezinha Souza. De frente para o mar e para o perigo, a escola também sofre com os efeitos do vento e da maresia. O vento forte provoca o destelhamento e quebrou as janelas, que ficam vedadas ou cobertas por lonas de plástico. Violência também é ameaça constante No Jacintinho, a Escola Miran Marroquim perde espaço físico para o tráfico que domina a comunidade Piabas. Os bandidos ocuparam a quadra de esporte e um galpão onde havia eventos. A diretora Keila Jaquiele pensou em reconstruir um muro para isolar o local, mas desistiu da ideia. ?Disseram que era melhor não fazer nada porque eles já se sentem os donos do espaço?. Após o atentado à bala que feriu um aluno e um estudante, a Escola Rosalvo Lôbo teve o policiamento reforçado. Mas os integrantes do Batalhão de Policiamento Escolar da PM revelam que ?cobre um santo para descobrir o outro?, já que o reforço na Jatiúca retira as rondas de outras escolas ameaçadas pela violência, como ?a Miran Marroquim, a Maria das Graças (no Feitosa) e a Ananias de Lima, no Vergel?, afirma o sargento Renivaldo Pontes. ?A Escola Marcos Antônio (Cavalcante), também no Tabuleiro, só tem duas salas de aula na sede, a estrutura é péssima. A extensão tem infiltrações, mofo, banheiros sujos e precários?, diz uma funcionária de lá que pediu para não ser identificada.