Cidades
Volunt�rios atuam no tratamento do c�ncer
De repente, uma notícia que ninguém está preparado para ouvir: aquela indisposição, aquele pequeno nódulo que apareceu recentemente no corpo, não é um incômodo qualquer. O câncer ainda é uma das doenças mais letais e cruéis entre os males não transmissíveis que afetam a humanidade ? onde se incluem também as doenças cardiovasculares, respiratórias crônicas e o diabetes ? e seu poder avassalador é capaz de desestruturar qualquer pessoa. Os números de casos não param de crescer em todo o mundo ? cerca de 20% na última década, segundo dados divulgados há poucos dias pela ONG WCRF (World Cancer Research Fund). E a doença não escolhe idade nem classe social. Há poucas semanas, o Brasil acompanha o drama do ator Reynaldo Gianecchini, que detectou a presença de um linfoma no organismo. Aparentemente, reagiu com calma, após o impacto da notícia. Mas, para a maioria das pessoas, um inesperado diagnóstico de câncer soa, inicialmente, como uma sentença de morte. Presença da família é essencial Lidar com a notícia de um câncer é muito difícil, não apenas para o paciente, mas para todas as pessoas ao seu redor. Aos 11 anos, iniciando a transição para a adolescência, uma dor abdominal no garoto Matheus Bernardo causou reviravolta em sua vida e na vida de seus familiares, diante do diagnóstico de câncer, confirmado há quatro meses. Uma cirurgia de urgência abriu caminho para a esperança de retirada do tumor, mas acabou revelando uma realidade mais dura. O linfoma não foi removido do organismo, e o garoto que gosta de correr e jogar bola teve de desacelerar a vida e enfrentar o tratamento. Raspar a cabeleira vasta foi um momento difícil, marcado pela emoção. Por alguns dias, ele ficou com vergonha de sair, relata a comerciária Fabiana Brandão, madrasta do garoto, com quem ele vive desde os 3 anos, ao lado do pai. ?Tudo mudou na vida dele e na nossa também. O Matheus não tem mais a mesma frequência na escola, por causa do tratamento, não pode jogar bola, coisa que ele gostava muito de fazer, e às vezes chega muito debilitado, o que é difícil também para o irmão dele, que mesmo sem entender acompanha todo esse processo?, diz Fabiana. Solidariedade mantém Apala há 18 anos A Apala é a entidade que atende um maior número de pacientes leucêmicos e crianças com outros tipos de câncer, dentro de Maceió. Foi criada há 18 anos, pela dona de casa Sandra Lucia da Rocha, depois que a filha dela foi diagnosticada com leucemia. Durante o tratamento, ela foi conhecendo outras famílias de leucêmicos e percebendo a dificuldade que elas enfrentavam, principalmente as que vinham do interior, devido à falta de um ponto de apoio. Então constatou que, por causa disso, a maioria dos pacientes não retornava para o tratamento e acabava morrendo. ?Ela passou a abrigar essas famílias carentes na sua própria casa. Na época eram apenas 18 pessoas, mas o número começou a crescer e ela alugou uma casa, depois outra maior, até conseguir o terreno ? doado pelo município, na gestão da prefeita Kátia Born ?, onde foi construída a sede própria, localizada na Travessa Robert Simonsen, por trás do Hospital dos Usineiros, no Farol?, conta a psicóloga Rozenita Fernandes, que entrou na instituição como psicóloga voluntária, há 17 anos, e hoje dirige a entidade. Voluntários humanizam tratamentos ?Um diagnóstico de câncer desestrutura toda a família e o tratamento demanda tempo e dedicação quase exclusiva dos familiares. Esse apoio é fundamental para o sucesso do tratamento. A gente vai tentando suprir todas as necessidades, com muitas atividades. Isso reduz até os efeitos colaterais. Tem criança que chega aqui e encontra uma situação tão diferente da sua realidade que parece esquecer o sofrimento da doença. Muitas delas pedem para ficar?, diz Rozenita Fernandes, que conta ainda com o apoio a família no trabalho à frente da instituição. A psicóloga Sandra Agrelli também começou a trabalhar na Apala como voluntária, e hoje se dedica exclusivamente à instituição. ?Vivemos um milagre a cada dia? Nada é fácil na maratona de tratamento dos pacientes com câncer, sobretudo para quem mora no interior e não dispõe de condições financeiras para o mínimo de conforto durante o tratamento. Muita gente sai de casa de madrugada, junto com outros pacientes que lotam os carros cedidos pelo poder público. E depois de enfrentar uma sessão de quimioterapia, ainda debilitado fisicamente, o paciente tem de esperar o transporte de volta, não se sabe até que horas, sentado numa cadeira, no corredor do hospital, ou até no meio-fio da calçada, sem o mínimo de conforto que a situação requer; muitas vezes até sem uma alimentação adequada. ?É uma situação angustiante para o paciente e para a família. Muitos desmaiam de fome ou de fraqueza enquanto esperam a hora de voltar para casa. São muitas histórias que cortam o coração e que despertam o nosso espírito de solidariedade?, diz a economista Jane de Holanda Falcão, que dirige a Casa de Apoio Lenita Quintela Vilela, localizada na Rua Zacarias de Azevedo, no Centro de Maceió. Alagoas é carente de cuidados paliativos Se o tratamento do câncer com a perspectiva de cura é difícil, muito pior é a vida de um paciente em estado terminal, que não responde mais ao tratamento curativo. E quando se trata desses cuidados paliativos ? procedimentos destinados a proporcionar bem-estar, conforto e suporte aos pacientes e seus familiares na fase terminal de uma enfermidade ? a realidade alagoana, assim como em todo o Brasil, não é nada confortável. Em 2010, um estudo comparativo da revista The Economist sobre o tratamento dispensado a pacientes terminais em 40 países apontou o Brasil na 38ª posição, na frente apenas da Índia e de Uganda. Em Maceió, no Hospital Universitário (HU), o Ambulatório de Cuidados Paliativos do Centro de Alta Complexidade em Oncologia (Cacon) existe desde 2008, acompanhando esses pacientes na tentativa de reduzir o sofrimento com as dores e desconfortos da fase terminal da doença. É um serviço pioneiro no Estado de Alagoas, que consiste no agendamento de consultas e até visitas médicas domiciliares, quando o estado de saúde do paciente já não permite mais o seu deslocamento até o hospital. SERVIÇO Quem desejar colaborar com as instituições citadas pode entrar em contato pelos seguintes telefones: Apala (82) 2122 9400 Casa de Apoio Lenita Vilela (82) 2123 6297 Cacon (Hospital Universitário) (82) 3315-7906