Cidades
Interioriza��o da Ufal esbarra em problemas
Pensado e executado para ser instrumento de desenvolvimento e de esperança para milhares de jovens de cidades de várias regiões de Alagoas, cinco anos depois de iniciado, o processo de interiorização da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) esbarra na absoluta falta de estrutura de suas principais apostas de expansão no Agreste e no Sertão. O prédio sede do Campus Sertão, em Delmiro Gouveia, que vai abrigar os seis cursos na região sertaneja, ainda está em obras. Sua unidade de ensino, o polo Santana do Ipanema, funciona de maneira precária em salas locadas de uma escola. As condições de ensino não são diferentes das encontradas nas escolas públicas de ensino médio sucateadas. As obras do campus estão paradas e não há previsão para a conclusão. A empresa que ganhou a licitação para a construção simplesmente abandonou a obra. No Campus Arapiraca, o primeiro a ser implantado, em 2006, e onde funcionam 14 cursos, o problema é a violência, a falta de espaço, além da deficiência de transporte para a comunidade acadêmica. Situado ao lado de um presídio, o predio já foi alvo de invasões e de tiros. MEC não reconhece curso A precariedade e o amadorismo das instalações do curso de Medicina Veterinária não passariam incólumes pelo crivo da comissão do Ministério da Educação (MEC) que inspecionou o polo Viçosa há pouco mais de um ano. O curso não foi reconhecido e sequer recebeu nota, nem mesmo abaixo de três. Para os técnicos do MEC, uma estrutura onde só há alunos, professores e algumas salas de aula não apresenta as condições básicas necessárias para formar médicos veterinários. ?Nós estamos na expectativa da nova visita do MEC, porque eles irão retornar para ver o que a universidade fez depois do relatório. Se eles chegassem aqui hoje, nós estaríamos ?mortos?. Essa é que é a verdade?, crava o professor Diogo Câmara. Quanto ao quadro docente e ao projeto pedagógico, o Ministério da Educação não viu problemas e até pontuou com nota 5 esses dois quesitos. O grande problema é de fato a infraestrutura do curso de Medicina Veterinária. Universitários buscam qualidade fora de Alagoas Talvez o caos na estrutura do curso explique a evasão verificada na primeira turma a se formar em Medicina Veterinária. Dos 40 alunos que iniciaram o curso, apenas 14 chegaram ao fim. ?O desestímulo fez com que o número chegasse a catorze?, atesta, desolado, Tiago Barros. Para minimizar as deficiências da formação, a partir de parcerias, os alunos puderam desenvolver estágios em centros de excelência na área, como Botucatu e Jabuticabal, em São Paulo. Cada aluno recebeu uma bolsa no valor irrisório de R$ 300 para despesas. Agora formada, a estudante Carla Loureiro precisou de muita determinação para concluir a jornada. ?A ideia da interiorização é muito boa, mas não da forma como está sendo feita em Viçosa. Nós nos sentíamos jogados ali, naquela fazenda. Muitas vezes tive de ir a pé para a aula?, lembra, ao reclamar da distância de mais de três quilômetros que separa o prédio do Centro de Viçosa. ?Uma vez fomos pedir que o prefeito colocasse uma linha de ônibus para a Fazenda São Luiz, mas ele nos disse que não havia interesse, porque a faculdade não trazia retorno algum para o município?, contou Carla. Fazenda sofre com invasões e professor já foi ameaçado A Fazenda São Luiz, na zona rural de Viçosa, já abrigou o embrião do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Alagoas (Ceca), fundado em 1975. Mas sua história passa pelas primeiras tentativas de se instalar um curso de Agronomia no interior do Estado, no início dos anos quarenta. O local estava ocupado por trabalhadores sem-terra e uma intervenção judicial garantiu a reintegração de posse, para que a Ufal pudesse implantar o curso de Medicina Veterinária, em 2006, durante o início do processo de interiorização da Ufal. ?A reintegração de posse da fazenda foi dada como vitoriosa, porém, hoje, ainda moram aqui 104 pessoas de forma irregular, inclusive com posseiros tomando a fazenda?, afirma o professor Pierre Barnabé, responsável por administrá-la. Segundo ele, para dar conta dos 300 hectares da Fazenda São Luiz, o curso dispõe apenas de dois seguranças. Polos de Penedo e Palmeira são melhores Os polos Penedo e Palmeira dos Índios compõem, junto com Viçosa, as unidades de ensino do Campus Arapiraca. Penedo abriga os cursos de Engenharia de Pesca e Turismo, enquanto Palmeira dos Índios comporta os cursos de Psicologia e Serviço Social. De todas as unidades, são as que apresentam a melhor situação, embora ainda haja uma longa estrada para caminhar. ?Aqui nós conseguimos o nosso prédio próprio, mas só depois de um longo processo de mobilização e muitos protestos que envolveram professores e alunos?, diz o ex-coordenador de Palmeira dos Índios, professor Cícero Albuquerque. Ele deixou o cargo na semana passada. Segundo ele, o curso de Psicologia ainda aguarda a construção de uma clínica, que servirá de laboratório para os alunos. Esse foi um dos motivos que fizeram com que o Ministério da Educação (MEC) não reconhecesse o curso na vistoria feita no início do ano. ?Mas recorremos e pelas informações que tenho o curso será reconhecido sem ser preciso uma nova vistoria?, disse o professor Cícero Albuquerque. Cursos alimentam sonhos de jovens O surgimento dos cursos universitários e da possibilidade de possuir um diploma agitou e despertou o sonho de jovens de vários municípios do interior alagoano. Se antes cursar uma faculdade parecia algo quase impossível, a interiorização chegou, pelo menos no papel, para mostrar que o sol nasce para todos. Dos mais de 900 alunos que estudam nos 14 cursos oferecidos no Campus Arapiraca, mais de 90% são oriundos de cidades circunvizinhas e não teriam condições financeiras de se deslocar para Maceió, ou outro centro universitário, para cursar o ensino superior. Segundo dados apresentados pela Ufal, 75% dos alunos aprovados no vestibular de 2010 concluíram o ensino médio no interior. Mais de 80% não fizeram cursinho e 95% deles estão cursando pela primeira vez uma faculdade. ?Foi uma grande oportunidade, uma porta que se abriu para nós que moramos no interior. É uma pena que as condições oferecidas não são favoráveis?, diz com afiado senso crítico Cristiane Maria de Araújo, de 24 anos, aluna do curso de Zootecnia. Sem salas, início das aulas é adiado Quase dois anos depois do início das aulas, a estrutura da Ufal em Delmiro Gouveia resume-se, atualmente, a uma casa cedida pela prefeitura local. Espremido no ?gabinete? improvisado dentro de um dos quartos, o diretor do Campus Sertão, Ricardo Silva, tenta administrar as dificuldades impostas pelo início da implantação do braço sertanejo da interiorização. ?A nossa chegada aqui foi uma vitória. Chegamos atrasados, estava mais do que na hora, mas agora nós temos todas as dificuldades que se possa imaginar. Principalmente no tocante à estrutura?, diz o professor Ricardo Silva. Enquanto ele conversa com a reportagem, um grupo de funcionários e professores se amontoa na cozinha improvisada, naquele momento, como sala de reunião. À frente da direção do Campus Sertão há quase dois meses, a primeira medida que tomou foi entregar as salas da Escola Estadual Watson Clementino, onde, durante um ano e meio, funcionaram os seis cursos oferecidos pela Ufal, em Delmiro Gouveia: Engenharia Civil, Psicologia, Pedagogia, Letras, História e Geografia. Em Santana do Ipanema, faltam livros na biblioteca No mesmo local onde estudam, hoje, os alunos dos cursos de Ciências da Economia e Contabilidade da unidade de ensino de Santana do Ipanema, já perambulou e deu ordens, nos anos 1940, o famoso tenente João Bezerra, responsável por comandar a volante que trucidou o bando de Lampião, na gruta de Anjicos. O histórico casarão de mais de 70 anos já abrigou o 2º Regimento da Polícia Militar de Alagoas, de onde partiam os bravos policiais para batalhas de morte contra o cangaço. Hoje o local é conhecido como o Colégio Cenecista Santana, instituição não menos histórica, fundada pelo Padre Teófanes de Barros, um dos principais educadores de Alagoas, e onde estudou José Marques de Melo, um dos principais teóricos da Comunicação. Foi lá que a Ufal encontrou a solução temporária para abrigar os universitários de Santana do Ipanema, assim como os de Delmiro, órfãos de uma sede própria. Assim como como em Delmiro, a empresa que venceu a licitação não concluiu a obra, que está em fase de rescisão de contrato e não tem prazo para ser retomada. Superintendente explica atrasos Em entrevista por e-mail à Gazeta, a superintendente de Infraestrutura da Ufal, a professora Aline Barbosa explicou alguns dos problemas que impedem as conclusões de algumas obras fundamentais para as unidades de ensino da Ufal no interior. Segundo ela, a universidade vem adotando todas as medidas que lhe cabe para tentar sanar os percalços da interiorização. Segundo ela, a Superintendência de Infraestrutura da Ufal (Sinfra) vem tomando medidas baseadas no ?aprendizado? obtido nos primeiros anos de implantação do projeto de interiorização. *** Gazeta ? Quais os motivos para a demora da conclusão do prédio do Campus Sertão? Aline Barbosa ? A instalação do Campus do Sertão teve início com a licitação de um prédio que teve contrato rescindido por descumprimento por parte da construtora contratada. O segundo prédio que está em execução é a maior parte do campus e teve seu início já no contexto de falta de mão de obra e insumos que vêm rodeando toda a cadeia da construção civil. Trata-se ainda de uma construção diferenciada, com tecnologias construtivas para garantia de um melhor conforto térmico, reúso de águas servidas e maior eficiência energética. Qual o valor total da obra? Aproximadamente R$ 7,5 milhões. Quando será entregue totalmente concluído o Campus Sertão? Do que constará a estrutura? Temos como previsão para a conclusão da obra licitada janeiro de 2012. O prédio em execução possui salas de aula, laboratórios, biblioteca, salas de permanência, lanchonete e auditório.