Cidades
Crian�as est�o cada vez mais doentes
O apito do trem de 7h40 foi o sinal da tragédia. O Rio Mundaú já estava cheio e ameaçava subir ainda mais. De repente, a enxurrada desceu feroz. Dentro de casa, a poucos metros do rio, Ana Paula da Silva só teve tempo de pegar na mão do filho de três anos e correr. Perdeu tudo o que tinha, mas ninguém morreu. Carregava na barriga a pequena Esmeralda, que nasceria no mês seguinte, em meio ao caos e ao sofrimento que tomou conta da vida de milhares de famílias ribeirinhas vítimas das enchentes do mês de junho do ano passado. Longe dos acampamentos de desabrigados e de fora da lista dos que aguardam casas, muita gente voltou a morar em locais de risco, às margens dos rios, onde as condições são precárias, a água é contaminada e as doenças imperam. Nesse ambiente insalubre, as crianças são as principais vítimas. Segundo dados da Pastoral da Criança, organismo de ação social ligado à Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), as crianças vítimas das enchentes do ano passado em Alagoas estão adoecendo mais do que a média nacional, atacadas por doenças de veiculação hídricas. Embora o tratamento seja barato e haja meios eficazes de combate, a maior vilã é a diarreia. Dados divulgados pelo Unicef e pela Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram que a doença mata mais do que o sarampo, a Aids e a malária juntos. Água contamina famílias O olhar baço, os olhos fundos, a magreza e a sonolência da pequena Esmeralda denunciam a saúde frágil da criança, mesmo para quem não é médico. ?Ela está com febre desde ontem, está muito gripada?, diz Ana Paula Maria da Silva, nossa personagem do início da reportagem. No dia anterior, ela foi bater no hospital com a menina. ?Ela estava mole e eu resolvi levar para a médica ver?, disse. Na maioria das visitas realizadas pelas líderes comunitárias que atuam na Pastoral da Criança, Esmeralda estava com diarreia. A situação da menina é preocupante. No mês seguinte à tragédia da enchente que marcou a história de Rio Largo, dias depois do nascimento da menina, Ana Paula buscava ajuda de quem passava pela estrada, próximo à ponte que dá acesso à comunidade de Beiju de Coco, agora batizada pela pastoral de Comunidade Cristo Rei. ?A situação dela era muito complicada, assim como a de muitas mães que perderam tudo. Ela estava desesperada quando a encontrei. Suplicava por um local onde pudesse fazer o gogó da filha, que tinha acabado de nascer?, lembra Evanise Dórea da Conceição, a primeira coordenadora da Pastoral da Criança em Rio Largo. Afastada por motivos de saúde, ela ainda colabora como pode. Esgoto a céu aberto e lixão poluem ambiente Caminhando pela rua principal da comunidade Beiju de Coco, agora ?batizada? pela Pastoral da Criança com o nome de Cristo Rei, em Rio Largo, ficam visíveis os problemas que contribuem para a proliferação de doenças. Logo no início da via que dá acesso à comunidade, o esgoto corre livre, deixando um mau cheiro no ar. ?Me desculpe a palavra, viu moço, mas isso aí é bosta mesmo?, reclama Bonifácio Joaquim dos Santos, de 80 anos, um dos mais antigos moradores da região. ?Vieram aqui uns trabalhadores, cavaram, mexeram e deixaram assim?, diz. Ele também reclama da pequena passarela que havia e evitava que as crianças se arriscassem em travessia pelas pontes. ?Nos prometeram reconstruir a passarela, mas até agora nada. Já teve criança atropelada aí na pista?, contou Bonifácio, que disponibiliza sua casa para os trabalhos de pesagem dos meninos atendidos pela Pastoral da Criança. Purificadores são doados por pastoral Para tentar amenizar a situação, em parceria com uma marca de purificadores da Unilever, a Pastoral da Criança distribuiu, em todo o Brasil, mil purificadores de água, numa campanha em prol do acesso à ?água segura?. Em Alagoas, 300 famílias atendidas em Rio Largo, União dos Palmares e Jacuípe já receberam os ?filtros?. O purificador de água dispõe de alta tecnologia para a eliminação de bactérias, vírus, hormônios e metais pesados. ?O objetivo é melhorar a qualidade de vida das famílias e tentar reduzir o número de doenças provocadas pela ingestão de água contaminada?, disse Maria do Amparo Torres, coordenadora da Pastoral em Alagoas. O projeto envolve o acompanhamento das famílias que receberam os purificadores e a educação para o uso adequado.