Cidades
Coleta seletiva n�o avan�a em AL
O encerramento do antigo lixão de Maceió, em abril de 2010, abriu duas perspectivas dentro de uma realidade socioambiental que se agregava à sua existência. De um lado, a preocupação com o futuro das cerca de 300 pessoas que sobreviviam catando material reciclável nas montanhas insalubres de lixo que cresciam a céu aberto, na área saturada entre os bairros de Mangabeiras e Jacarecica. Do outro, a expectativa de que a inauguração do aterro sanitário e os debates realizados no entorno da sua concepção impulsionassem, enfim, a cultura da coleta seletiva no seio da sociedade alagoana e a necessidade urgente de organização de estruturas que pudessem ampliar a absorção desses resíduos e oferecer mais condições de trabalho aos catadores de material reciclável, dignificando seu papel social em prol do meio ambiente e favorecendo o aumento da renda para essas famílias. Ledo engano ? ou quase. Apesar da percepção de que a coleta seletiva tem ganhado mais adeptos, o processo é lento. Dos cerca de 1.400 quilos (1,4 toneladas) de lixo gerados em Maceió diariamente, calcula-se que apenas 1% é destinado à reciclagem. ?O potencial é de mais de 50%?, diz o engenheiro Eduardo Normande, coordenador do Centro de Educação Ambiental São Bartolomeu (Ceasb), que tem acompanhado e trabalhado junto com a Cooperativa dos Catadores da Vila Emater (Coopvila), que reúne 32 remanescentes do antigo lixão. Rendimento é desanimador Vida de catador é vida dura. Nas cooperativas, eles trabalham cerca de oito horas por dia, separando o material que chega, diariamente, em caminhões cedidos pelo poder público ou em carroças e carros de mão utilizados por eles para realizar a coleta em pontos mais próximos e onde o volume é menor. Mais duro, ainda, é ver que o rendimento de cada um, no fim do mês, dificilmente chega perto de um salário mínimo. ?É isso que faz muita gente desistir. Quem tem chance de um emprego com carteira assinada acaba deixando a vida de catador?, diz Melre, da Cooprel, destacando que, vez por outra, tem dificuldades em manter o número mínimo exigido para a existência de uma cooperativa: 20 pessoas. Este ano, entre janeiro e março, os cooperados ficaram animados com os rendimentos, que chegaram perto de um salário mínimo. Na Cooplum também aconteceu, no ano passado, de tirarem um salário mínimo, apenas uma vez. ?Isso acontece quando a gente recebe uma doação mais generosa de material?, explica Maria José da Silva, presidente da Cooplum. Cooperativas enfrentam dificuldades Assim como os catadores, as cooperativas também acalentam as dificuldades com a esperança de dias melhores, com aumento dos rendimentos dos cooperados, que não chegam a 100 (mas com perspectiva de duplicarem em breve). ?Hoje, temos pouco mais de 70 pessoas nas três cooperativas, mas já temos um grupo de 80 preparado para entrar na Cooprel, que está prestes a receber dois galpões?, diz Márcia Túlia, presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) em Alagoas. A entidade tem atuação nas três cooperativas, acompanhando e capacitando os cooperados para que possam, no futuro, assumir o remo do próprio destino, mas, segundo Márcia, não é fácil. ?Nesse caso, estamos lidando com pessoas que não tiveram oportunidade de aprender, que vivem em situação de extrema pobreza, e por isso têm uma serie de limitações. Imagine viver com uma renda per capita média de R$ 1,1/dia. Essa é a realidade deles?, explica ela. Na sua avaliação, a situação das cooperativas de catadores poderia estar melhor se houvesse uma política pública definindo que a coleta seletiva tem de existir; que a sociedade tem que fazer a sua parte. ?A renda mensal deles poderia chegar a R$ 1.000 ou R$ 1.500?, diz ela. Fabricação e venda de produtos viram alternativa As cooperativas trabalham alternativas que vão além da seleção e arrumação do material para a venda. Na Cooprel, os cooperados iniciaram um trabalho de captação de óleo de cozinha usado nos restaurantes e residências para começar, em breve, a produção de sabão. ?Falta comprar a soda cáustica, o amaciante, os baldes e as formas?, diz Melre, animada com as novas perspectivas. Além disso, falta melhorar a reserva de matéria-prima ? o óleo ?, e para isso elas montaram pontos de coleta também nos supermercados Extra e Hiper Bompreço do Farol. ?É só levar numa garrafa pet bem fechada e deixar lá na coleta. Ou ligar (9933-2478), que a gente vai pegar?. Na Coopvila, eles trabalham na confecção de vassouras de garrafa pet, à espera de um bom cliente que compre a produção. Uma vassoura tira oito garrafas do meio ambiente ? essa é a conta. ?É melhor do que piaçava?, garante Helcias Pereira, testando o produto. Tudo é feito nas oficinas montadas em galpões, por trás da Ceasb. Ali, os cooperados costuram sacolas ecológicas a partir de banners descartados, fazem cerâmica, confeccionam lustres de garrafa pet, desfiam o material para a produção de vassouras, moldam, grampeam, arrumam e apresentam: ?Está prontinha?, mostra Márcia Maria da Silva Santos, 33 anos. Alteração em edital beneficia catadores Um fato novo tem deixado mais animados gestores e apoiadores das cooperativas de catadores de Maceió. Uma alteração no edital de licitação da coleta de lixo do município, lançado pela prefeitura, vai receber um adendo, definido numa reunião realizada no dia 30 de setembro, no Ministério Público Estadual, desvinculando das empresas vencedoras a coleta seletiva de material reciclável e repassando essa tarefa às cooperativas. Com isso, elas terão assegurados, mensalmente, o repasse de R$ 168 mil pela prefeitura. A audiência, coordenada pelo promotor Marcos Rômulo, teve a presença de representantes de organizações governamentais e não governamentais e cooperativas de materiais recicláveis. ?Mostramos que a coleta seletiva não deveria ser tratada como um simples item dentro da complexa estrutura de um edital que envolve inúmeras outras atividades relacionadas à coleta de lixo e à limpeza pública da cidade?, explicou o engenheiro Eduardo Normande, que defendeu, na reunião, uma participação diferenciada para as cooperativas no que concerne à coleta de materiais recicláveis, e conseguiu.