Cidades
O homem do c�nion
O homem veio do pó da terra. Da trilha no barro do Sertão, pisou o caminho das pedras e teve visões. Conseguiu espiar entre espinhos com olhos que a terra há de comer. Sol na caatinga e no quengo. Parou na beira do abismo, chegou onde nunca tinha visto, mas sempre tinha pensado. Mirou para baixo, fechou os olhos... e sonhou. O homem é seu Zé Francisco, o descobridor que reinventou o Mirante do Talhado, no alto do mais autêntico cânion do Nordeste, território alagoano que desemboca no Rio São Francisco. O então agricultor José Francisco Silva, 72 anos, é hoje o homem do cânion, um empreendedor nato que transforma a aridez do local num celeiro rico para o desenvolvimento sustentável. Simples e genial, seu Zé Francisco envolve a comunidade do povoado de Olho d?Aguinha, no município de Delmiro Gouveia, em projetos socioambientais para dar suporte ao avanço de uma cadeia de turismo tão única quanto eficiente. Assim que chegou ao Mirante do Talhado pela primeira vez, Zé Francisco conta que abriu os braços e não pensou duas vezes. Mesmo com 62 anos, na época, e bem-sucedido com uma empresa de piscicultura no clima ameno do município de Traipu, enfrentou a resistência da família e resolveu montar acampamento na sua recôndita Pasárgada. FORASTEIRO SE TORNA EMPRESÁRIO DE SUCESSO O visionário Zé Francisco chegou à margem do Riacho Talhado como um forasteiro e foi tido como louco por muitos moradores de Olho d?Aguinha. Hoje é reconhecido nacionalmente pelo Sebrae por ser um dos primeiros empreendedores individuais de turismo do País. O Banco do Brasil convoca gerentes de várias agências para assistir à palestra e seguir os exemplos do homem do cânion. Suas façanhas vão do micro (plantio de inhame) ao macro (homenagens no Salão Nacional de Turismo, em 2010, em São Paulo). A Gazeta resolveu enveredar no Talhado para conhecer o fenômeno da multiplicação das águas, entre caatingas e paredões de arenito. O local servia de trilha para Lampião, foi alagado com a represa de Xingó e ficou famoso após virar cenário da novela Cordel Encantado. Mas a história a ser narrada agora é a de seu Zé Francisco, um desbravador comparável a Delmiro Gouveia. Para contar como o sertanejo que vendia água na moita virou uma referência nacional será preciso mais do que uma matéria. Então a Gazeta inicia hoje uma sequência de reportagens que serão publicadas nestes domingos de dezembro. VISÃO DE FUTURO E PERSISTÊNCIA SÃO QUALIDADES ESSENCIAIS José Francisco Silva virou um estudo de caso. Os especialistas que analisam seu exemplo destacam duas grandes qualidades: a visão de futuro e a persistência para não desistir diante de dificuldades. Para identificar isso bem, nada melhor do que se voltar um pouco para a origem do empreendimento, os primeiros percalços, investimentos e decepções. Um sobrinho de seu Zé queria saber se valia a pena ingressar em uma cooperativa agrícola em Olho d?Aguinha. Chamado para dar uma opinião, logo se encantou ?com tamanha maravilha, um cenário de belezas naturais incríveis?. Ele próprio comprou um lote de cinco hectares da cooperativa em 2004 e foi morar na região em 2006, já pensando em explorar o potencial turístico. FALTA DE DINHEIRO NUNCA FOI EMPECILHO José Francisco registra o dia 5 de maio de 2007 como um divisor de águas na sua vida, uma espécie de data de inauguração do empreendimento. ?O ponto de apoio já estava coberto e convidei quatro casais amigos para conhecer o local e comer aqui de graça, com a condição de cada um deles trouxesse mais um casal. Investi nesse almoço para os oito casais e eles se transformaram nos grandes multiplicadores do Mirante do Talhado?. No domingo seguinte, o empresário tinha mais 16 novos visitantes para receber e precisou melhorar a estrutura. ?Tive de ir atrás de talheres e louça, fui na casa de um sobrinho e peguei emprestado?. No terceiro fim de semana, mais de trinta pessoas já falavam em conhecer a novidade no meio do Sertão. ?Tive de me apressar, em Delmiro não tinha material de qualidade, corri para Maceió e comprei fiado 50 pratos, 50 copos e 50 talheres?. Depois do primeiro endividamento, a primeira decepção. ?Não veio ninguém, foi o maior desgosto da nossa vida, tinha preparado bode, peixe do rio e almoço em quantidade. Demos a comida aos vizinhos para não estragar. Mesmo assim, o bastante foi a gente perseverar que ia continuar?. O apoio da esposa (hoje falecida) foi fundamental. ?Fiquei preocupado, sem saber se ia encontrar dinheiro para pagar, mas Dona Ivonete dizia: ?Zé, está no plano de Deus?. EMPREENDIMENTO GEROU HOSTILIDADE Quando tudo ia bem, mais uma dificuldade. Em novembro de 2007, dona Ivonete adoece. Seu Zé larga tudo para acompanhá-la no hospital. Agregada da família, dona Inácia fica tomando conta para evitar o fechamento do negócio. O empresário só volta em julho de 2008, após a morte da esposa. O sucesso do empreendimento pode ter despertado sentimentos esquisitos ou hostis entre habitantes das redondezas. Tanto que, um dia após a volta para retomar os negócios, Francisco sofre um golpe que quase impõe a falência. ?Fui surpreendido com um grupo que veio aqui e levou tudo que a gente tinha, fogão industrial, ferramentas e toda louça, inclusive um faqueiro da Tramontina que a gente nunca tinha usado. Seria mais um motivo para ir embora e a minha cabeça ficou a mil?. PROJETO TEM PARCERIA DA COMUNIDADE O cânion une dois velhos e chicos: o santo rio e seu Zé, ambos são Francisco. O ?Velho Chico? e seu Zé Francisco se encontram em um certo riacho talhado, entre paredões alagoanos de pedra. De um lado, Olho d?Água do Casado, do outro, Delmiro Gouveia. No meio, o toque de Deus nas águas. Acima, as bênçãos do céu azul e de São Francisco de Assis, o protetor dos animais e da natureza. Deslumbrado com a beleza natural, Zé Francisco sempre soube que o negócio só podia acontecer junto com ações de preservação do meio ambiente. Para isso, era preciso envolver a comunidade, e seu Zé sempre foi um multiplicador em potencial, mestre na arte da motivação para engajar e conscientizar. Em seu âmago, o homem do cânion já trazia as lições de desenvolvimento sustentável. ?Tive um envolvimento com a comunidade e me preocupei em passar para ela que o projeto de turismo seria bom para todos. Comecei a pensar em formas de gerar rendas com a criação de produtos de qualidade para fornecer aos visitantes?, explica o empresário. Começou com a produção de alimentos em uma horta comunitária, para abastecer o restaurante. MEIO AMBIENTE É PRIORIDADE Hoje o negócio conta com orientação técnica, financiamento bancário e apoio logístico, mas antes tudo acontecia no peito e na raça. Algumas lições só se aprende apanhando. ?As mulheres faziam o produto do fuxico e não tinham a quem vender?, lembra. Surgiu então a Feira de Negócios da Fábrica da Terra. ?Elas venderam praticamente tudo que tinham e se animaram para produzir mais?. Só que a mercadoria encalhou de novo, mas a vida ensina que no Talhado ninguém desiste fácil. ?Hoje o fluxo de turistas já está melhor e as pessoas se interessam em conhecer e comprar o fuxico?, informa Zé Francisco. Quanto mais gente chega, mas seu Zé se preocupa em evitar a degradação ambiental. Com base em uma matéria que viu no Globo Rural, ele aprendeu a fazer uma estação de tratamento de esgoto por decantação, seguindo uma técnica desenvolvida pela Embrapa. De modo que a construção dos chalés, em plena área pedregosa, foi aprovada pelo IMA. TRILHA É FEITA SEM DESTRUIÇÃO DA NATUREZA Seu Zé Francisco é um guia turístico natural. Não fez curso de formação de guia, mas tem o dom de levar as pessoas pelos melhores caminhos, conhece bem a natureza, passa informações sobre a flora da região como ninguém. E sempre orienta os visitantes a deslumbrar das belezas naturais sem estragá-las. Para conhecer um pouco mais sobre a experiência de fazer uma trilha com seu Zé, nada melhor do que transcrever a gravação de algumas falas suas durante o passeio no Mirante do Talhado. ?Estamos começando a nossa trilha, onde existem obstáculos, vamos ter algumas pedras soltas, então vamos ter cuidado para evitar escorrego. Vocês recebem uma bolsinha para levar a água e podem usar para guardar o lixo, tenham cuidado com o lixo, não deixem nada aqui. Vamos fazer uma fila indiana para que a nossa trilha não se transforme num caminho. Não queira pegar uma pedra ou uma planta para levar para que outras pessoas também possam ver as mesmas belezas que a gente está vendo agora.? ?Aqui nós temos uma paradinha que serve para fazer um alongamento. E a gente aproveita para falar de uma espécie que tem um diferencial, que é essa bromélia, a macambira de flecha. Ela é bem resistente, suporta uma temperatura até de 45 graus e tem uma biomassa para alimentação dos animais, tem um volume de água que o teiú, o próprio macaco, o mocó se valem dessa bromélia. Também o homem, ele tem como alimentação porque essa macambira tem um palmito de seis a oito centímetros de um sabor fantástico, melhor do que qualquer palmito que tenha nas prateleiras do mercado industrializado.? ?Aqui nós temos também essa situação dessa árvore, o pião roxo?... E por aí vai. RELATOS LEVAM À REFLEXÃO ?Essa região aqui, há milhões de anos, era mar. Isso aqui tudo era água, não existia absolutamente nenhuma outra coisa na vista a não ser água. O que ocorre? Secou... quando secou, gente, ficaram essas dunas de areia, que foi aproximadamente 150 metros de altura. Imagine uma duna de areia de 150 metros, depois que começou se propagando com o vento e com a chuva, ele foi formando essa base de arenito, essa parte pedrificada (sic) de uma importância e de uma qualidade fantástica que o vento e chuva se propagou e se encarregou de fazer essa belíssima escultura.? ?Com certeza, nós colocamos um apelido nessa pedra como Pedra da Carranca porque ela tem este formato. Porém, nós achamos que não tem outra explicação: é a natureza talhada por Deus, porque essa escultura não tem explicação que homem nenhum poderia fazer algo dessa natureza.? POTENCIAL DA REGIÃO É ENALTECIDO DURANTE PASSEIO ?Vamos dar as mãos, e cada um da gente vai ter uma palavrinha amiga para dizer para nossa Mãe Terra. Vamos baixar a vista, vamos olhar para ela, de cabeça baixa, porque se a gente levanta a cabeça, tira o sentido do que a gente quer falar para nossa Mãe Terra, então vamos ter esse comportamento, de andar de cabeça baixa. E chegando aqui, a gente para e levanta a vista para olhar a nuvem. Onde a gente encontra a nuvem sabe que ela é a responsável por toda a água que abastece a Mãe Terra. Se a gente olha para esse lado de cá...?. Ao dizer isso, seu Zé fica em silêncio. De mãos dadas, os visitantes abrem os olhos, viram-se e se deparam com o cânion do Mirante do Talhado à sua frente. A emoção é total, alguns aplaudem, outros murmuram, suspiram ou gritam, mas ninguém fica inerte.