Cidades
Um mergulho em abismos
Deus fez a natureza, e o homem para contemplá-la. O cânion do Talhado está lá, gigante e silencioso, como um titã adormecido, à espera de qualquer herói que se digne a conhecê-lo. Seu Zé Francisco é um deles, uma rara espécie de Jasão do semi-árido alagoano, nos confins do Nordeste do Brasil. Aos 72 anos, ele reúne seus ?Argonautas? para mergulhar em abismos com o rapel e singrar águas profundas que desembocam no Rio São Francisco represado pela Usina de Xingó. O maior troféu conquistado por José Francisco Silva foi a criação da microempresa que acolhe turistas aventureiros dispostos a escalar paredões de rocha e trilhar caminhos tão pedregosos quão espinhentos, sob o jugo do deus Sol. Zé não buscou seu Velocino de Ouro pendurado num carvalho sagrado da Cólquida, como fez o grego Jasão, mas realizou façanhas para conquistá-lo entre xique-xiques no povoado de Olho d?Aguinha, Sertão do município de Delmiro Gouveia, a 287 quilômetros de Maceió. Na edição do domingo passado, a Gazeta de Alagoas começou a contar um pouco da saga deste ?herói do Sertão? que percebeu um nicho de mercado, teve visão de futuro para abrir um negócio inédito e persistiu para superar inúmeras dificuldades. Hoje, o homem do cânion é citado como um exemplo de empreendedorismo e sustentabilidade por instituições como Sebrae, Banco do Brasil, Instituto do Meio Ambiente (IMA), prefeituras, ONGs e afins. Região é propícia aos esportes radicais O homem do cânion reverencia a natureza. Em dado momento da aventura, ele pede aos companheiros que deem as mãos, olhem para baixo e dediquem uma oração à Mãe Terra. Cada um faz sua homenagem; ninguém fala, mas as palavras saltam à mente: ?Pelo rastro do rabo do téiju/ Pelo canto da nambu pé/ Pelo bando de macaco prego/ Pelo cheiro da fulô/ Pela folha do umbu/ Pela cor da açucena/ Pelo esturro do gato do mato/ Pela rocha de arenito/ Pelo brilho da Lua n?água/ Pelas cicatrizes da erosão e pela força do grande cânion, viva a Mãe Terra!?. Seu Zé Francisco pega um punhado de areia, ergue o braço, abre a mão e joga. Esta terra é livre, não tem dono. O espírito de liberdade do ecologista nato se completou com a parceria da empresa de turismo de aventura. Simbiose completa também para o jovem que já desenvolvia excursões com rapel em áreas como o Gunga, Cachoeira do Tiririca, em Murici, e Cachoeira do Anel, em Viçosa. Atividades seguem padrões de segurança e atraem visitantes O empresário destaca o foco socioambiental desenvolvido por Zé Francisco com a comunidade de Olho d?Aguinha, com projetos de geração de renda, cultivo de alimentos saudáveis, cultura, artesanato e consciência ecológica. Questionado se foi preciso um pouco de loucura para bancar o projeto, Rodrigo afirma que é uma ?loucura saudável?, de ter um objetivo e acreditar nele. ?É um pouco dessa loucura que faz a gente viver satisfeito até hoje, é um sonho cada vez mais consolidado de uma maneira absolutamente sustentável de conviver com a natureza?. As atividades de rapel e canoagem no Talhado seguem todos os padrões de segurança aceitáveis pelo mercado, com certificados do Inmetro pelo Sistema de Gestão de Segurança. ?É uma grande oportunidade de as pessoas conhecerem o Sertão de Alagoas de uma forma inusitada e sustentável, não é um turismo predatório. As pessoas falam que Delmiro Gouveia está longe, mas viajam para São Paulo, Europa, Estados Unidos, e esta maravilha está aqui bem próximo da gente?. DESCIDA DE RAPEL É SÓ EMOÇÃO O que eu estou fazendo aqui? Com a corda na cintura, de capacete, luvas e com os pés na beira do precipício? Estou pendurado. Fecho os olhos e volto no tempo. Lembro da saída da redação da Gazeta, em Maceió, com os parceiros Nelson Cavalcante e Ailton Cruz. Ao som de Luiz Gonzaga e Mestre Ambrósio no carro, passamos por Arapiraca e seguimos pela AL-220 em direção a Delmiro Gouveia. ?Depois de Olho d?Água do Casado, você conta três pontes para pegar a primeira entrada à esquerda. Não tem errada, é fácil, tem uma placa bem grande dizendo Mirante do Talhado?. Era a voz de seu Zé Francisco ao telefone, dois dias antes. O coração bate forte, a boca seca, uma brisa sopra serelepe no meio do bafo quente do Sertão. O receio da altura só não é maior que a vontade de conhecer as emoções do rapel pela primeira vez. Ainda mais num lugar bonito desses. Medo é vencido e experiência torna-se inesquecível Olho para baixo e conto os cinquenta metros de altura. Como um senhor de 72 anos pode fazer isso tão naturalmente? Penso na família, trechos da vida passam na cabeça como um filme acelerado. Lá embaixo, a água brilha, tudo é muito lindo e me faz esquecer qualquer noção de perigo. É uma aventura, é um desafio. Desci o primeiro passo, o segundo. ?Pronto, agora não tem mais volta?. Vencida a primeira barreira, o início da descida com os pés no paredão é demais. Do alto do cânion, sinto-me o máximo, olho o azul do céu e o verde do Riacho Talhado. Agora é hora de soltar os pés e se deixar pendurar pela corda: liberdade! Finalmente respiro bem. Lembro do seu Zé: ?Respire fundo, e vamos lá?. Ele tem toda a razão: ?É simples?, mas só para os que conseguem. O rapel no cânion do Talhado é transformador. Desço aos poucos, paro e aprecio o visual. As entranhas do paredão de arenito parecem sussurrar. A cada movimento, o rio se aproxima. A imagem da água pura traz aconchego no meio do perrengue, a ideia de um mergulho de cabeça refrescante anima qualquer um. PARA SEMPRE NA HISTÓRIA Antes da explosão de adrenalina no rapel, ainda tive a ilusão de que conseguiria gravar todos os momentos em tempo real. Combinei com o instrutor Rodrigo um jeito de pegar o gravador durante a descida e imaginava entrevistar seu Zé Francisco lá de cima, pendurados na corda. Quem disse que consegui? Não teve jeito, praticamente não pronunciei uma palavra. Já com os pés no chão, fica tudo mais fácil. Decidi, então, explorar a descida do meu companheiro de reportagem, o fotógrafo Ailton Cruz. Ele foi bem mais ágil que eu. Assim que o vi descendo, comecei a gritar para manter contato, perguntando sobre as impressões que ele vivia naquele momento. Confira alguns trechos da nossa entrevista, aos berros, a mais de 40 metros de distância. ? Ô Ailton, como é que foi logo no começo? ? Foi uma maravilha! ? Sentiu alguma dificuldade? ? Rapaz, é só os braços que não estão acostumados com esse tipo de atividade. ? O que você está vendo agora? ? Bicho, uma das melhores cenas que vou registrar na minha vida. E tudo está acontecendo agora. Essa aqui vai ficar na história. O arquiteto do universo construiu isso aqui, e guardou para nós. ? E o que você está sentindo? ? Muita emoção, cara, a emoção de estar aqui no espaço, num cânion como esse, numa descida vertical com tantos metros de altura, acompanhado pelo Rodrigo. Não pode existir uma satisfação maior na vida de uma pessoa do que essa que estou tendo agora. Ailton e Rodrigo chegam ao fim da descida e continuo gravando. Rodrigo: ?A segurança é uma premissa básica, mas o maior motivo disso aqui é a contemplação da natureza, a integração entre o homem e o ambiente. Nós estamos em pleno Sertão, numa maravilha dessa, nós somos abençoados por Deus por ter essa natureza ao nosso redor?. Maurício: ?No começo, pensei muito em sobreviver, mas, assim que a gente chega embaixo, é uma explosão de sangue no cérebro. Eu não somente sobrevivi, eu revivi, eu renasci, outra vida minha começa a partir desse momento?. Ailton: ?Um paredão desse de 50 metros não é para todo mundo, mas é para nós. E é para o leitor da Gazeta, espero que o leitor se delicie com essas maravilhas, a reportagem e os registros de imagens que nós fizemos?. Rodrigo: ?E costumo dizer o seguinte: não basta ver as fotos, é preciso viver a emoção?. Maurício: ?Ainda tive a sorte de descer com o homem que traduz um pouco do espírito do que é o Mirante do Talhado, o seu Zé Francisco. Seu Zé, apesar do marinheiro de primeira viagem ter tremido no meio do caminho, como é que foi a descida??. Zé Francisco: ?Olhe, foi muita boa por poder proporcionar a uma pessoa que pela primeira vez se submete a um desafio dessa natureza. Você disse que esse desafio vai lhe marcar, por quê? Porque você pensou que não era capaz de superar o desafio que você acabou de superar neste momento?. Ailton: ?Também é a primeira vez que eu desço num rapel, já fotografei vários rapéis, mas é a primeira vez que eu desço, e acho que esse é um dos mais lindos que existe na região?. Rodrigo: ?Sem sombra de dúvida?. Ailton: ?(...) E, bicho, quero vir mais vezes, porque aí já vou descer mais tranquilo, sabendo o que eu devo fazer, com o que vou me deparar. Se a gente não descesse, como contaríamos a história. Estou maravilhado, tanto com a natureza e o lugar como com os companheiros que estão nos ajudando aqui?.