Cidades
Turismo que respeita o Meio Ambiente
No tempo da Pedra Lascada, o homem não tinha esgoto e poluía santuários ecológicos. Dois milhões de anos depois, o problema persiste em paraísos como o cânion do Talhado, no Sertão de Alagoas. A área abriga sítios arqueológicos e um potencial turístico em plena expansão, depois que virou cenário da novela Cordel Encantado e de documentários estrangeiros. Certo dia, um genuíno representante da nova raça humana (os Homo sapiens) resolveu corrigir o erro milenar com duas coisas que o Australopithecus não dispunha: consciência e tecnologia. O homem do cânion é o microempresário José Francisco Silva, 72 anos, que se tornou um ícone nacional em defesa do turismo sustentável por adotar iniciativas originais, como a implantação de uma Estação de Tratamento de Esgoto dentro do solo pedregoso. O trabalho para impedir a poluição no produto turístico criado pela empresa Mirante do Talhado exigiu força e lembrou um pouco o tempo das cavernas. Seu Zé teve de quebrar pedras com a força dos braços (e uma marreta). Por dentro da ?pedra lascada?, cavou mais de um metro para implantar quatro caixas de retenção da fossa rural. ?As mãos doeram um pouquinho?, lembra o bravo, mas a natureza está sã. ÁGUA SERVIDA É TRATADA E REUTILIZADA O aumento do número de visitantes ao estabelecimento no cenário natural que deve ser protegido gerou um impasse. Como crescer as instalações no Mirante do Talhado sem um sistema de saneamento adequado? Seria possível cavar fossas assépticas no solo rochoso sem afetar o meio ambiente? Uma intervenção mais tosca poderia escoar poluição para o Riacho do Talhado, áreas nativas de caatinga, ou para o próprio paredão do cânion. Sem dormir direito com esta preocupação, o homem do cânion despertou num certo domingo com uma boa notícia. ?De repente, uma pessoa telefona: ?vá para a TV e veja o que está passando no Globo Rural?, era um programa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, falando sobre essa fossa diferente. Eu pensei: que coisa fantástica?. Como em tudo que faz na vida, José Francisco não perdeu tempo. Na terça-feira, já estava pedindo as caixas d?água, canos e válvulas de retenção que colocaria no subsolo. O sertanejo diz que aprendeu toda a técnica só ?no olho? e fez pequenas adaptações. TRILHA RESERVA SURPRESAS A trilha no clima semi-árido com José Francisco é uma experiência ímpar. Momento único na companhia do homem do campo que conhece os segredos da flora catingueira como poucos. A cada passo, uma nova história pode surgir. Há um ensinamento em cada árvore ou planta. Basta notá-la, parar e perguntar a seu Zé que ele explica. Em cada pedra com um formato diferente, um significado ou mistério. Treinado pela própria natureza, o guia alerta para o perigo de acidentes e sempre está falando sobre os cuidados com o meio ambiente. Seu Zé é uma atração excepcional que se integra ao cenário deslumbrante, ao ar puro e à energia do Riacho do Talhado. A caminhada em direção ao cânion ainda reserva grandes e agradáveis surpresas. Numa delas, o sertanejo ?enterte? os visitantes mostrando um belo cacto no chão, a ?coroa de frade?. JOVENS VIRAM MULTIPLICADORES A encenação criada e dirigida pelo homem do cânion mobiliza filhos de vaqueiros e agricultores da região: ?Eu aqui vivia da pesca, da caça, do cultivo. Esse era o meu trabalho!?, exclama outro ?índio?, em tom ameaçador. Os jovens são capacitados para defender o meio ambiente diante dos turistas e se tornam multiplicadores na comunidade: ?Mas aí vieram vocês, dizendo ser civilizados. Que civilização é essa, que mata e destrói??. As moças e rapazes da região também estudam o texto escrito por José Francisco e aprendem o significado de palavras não muito comuns no seu vocabulário: ?Hoje eu sou massacrado e devastado por todos vocês, acéfalos civilizados?. As apresentações culturais geram renda e envolvem a comunidade em torno da causa ambiental: ?Quando essas terras não eram Brasil, eu falava língua de gente. E vivia uma vida real?. AULAS AO AR LIVRE A intimidade de seu Zé Francisco com as árvores chama atenção e desperta a vontade de cuidar bem da natureza. Ele toca as folhas com carinho, desliza a palma da mão no tronco e até se abraça a algumas, como se fossem velhas amigas. O amor chega ao ponto da esposa dele, dona Inácia, até simular que sente ciúmes. ?Mas é eu brincando, também eu amo as árvores?, corrige dona Inácia, ligeiro, para não deixar dúvida. Ao avistar o umbuzeiro, Zé logo se achega à árvore frondosa para citá-la como um exemplo de resistência que ensina o povo sertanejo a sobreviver. ?Ele tem um reservatório que armazena de 1.300 a 1.600 litros de água para resto do ano. Mas o pé de umbu é sabido, ele não vai guardar água no inverno, pode reparar que a batata fica murcha, só enche mesmo no final de agosto e setembro. Por que? Porque no inverno é fácil de achar água em todo canto, quando seca ela vai buscar a água armazenada. Bem assim faz o homem também, com a cisterna?. ?MINHA PREOCUPAÇÃO É SEMEAR? Com visão de mercado, seu Zé cria uma rede de serviços e produtos envolvendo a comunidade. Foi assim que surgiu o projeto que ensinou mulheres de Olho d?Aguinha a trabalhar com a renda do fuxico, criando um pequeno polo de artesanato. Da mesma forma, agricultores foram motivados a ingressar no Programa de Alimentação Saudável (PAS), da Secretaria de Agricultura do Estado. Em parceria com a Prefeitura de Delmiro Gouveia, ele conseguiu levar o caminhão de lixo uma vez por semana para recolher tudo que poderia ser jogado na região. Dentro do restaurante e da pousada, seu Zé quer iniciar um projeto para separar o lixo para reciclagem. Recipientes já foram espalhados para receber a garrafa d?água e os copos plásticos usados pelos visitantes. O espaço para a separação de vidros, metais e lixo orgânico já está sendo criado. Em alguns momentos, no meio da trilha, o homem do cânion lembra que tem muita coisa ainda a mostrar e, por vezes, se parece com um personagem de conto de fadas. TINO COMERCIAL ATRAI VISITANTES O microempresário José Francisco já foi elogiado no Salão Nacional de Turismo, em São Paulo, o maior evento do setor no País, além de ser citado pelo Sebrae como o primeiro empreendedor individual de turismo de Alagoas, um dos pioneiros no Brasil. O exemplo também é referência para o curso de Formação de Guias que o Senac desenvolve e levou o IMA a reunir prefeitos, gestores públicos e empresários ligados ao Arranjo Produtivo Local (APL) Caminhos do São Francisco para uma aula de campo. O presidente do IMA, Adriano Augusto, explica que o objetivo desse dia de campo no Mirante do Talhado foi para mostrar a gestores e outros empreendedores que é possível investir no turismo da região, sem prejudicar o meio ambiente. ?Sempre tive uma espinha na garganta, há milhões e milhões de reais para os municípios fazerem estações de tratamento de água e esgoto, mas as obras não acontecem, então a gente mostrou que um cara simples como o seu Zé Francisco, com poucos recursos, fez uma estação na sua propriedade?. Mirante deve receber averbação de reserva legal Os técnicos do IMA estão sempre fazendo visitas a povoados e comunidades de pescadores para fiscalizar e orientar, por meio de palestras e dinâmicas. ?A preocupação é garantir o desenvolvimento do potencial turístico da região de maneira organizada e minimizando os impactos sobre a caatinga, um bioma tão sensível e de recuperação lenta?, defende o presidente do IMA, Adriano Augusto. Percorrendo os onze municípios do Baixo São Francisco, os fiscais ambientais perceberam o diferencial no Mirante do Talhado. ?Desde o início do projeto de conscientização, o seu Zé Francisco sempre esteve à frente, muito atento, pedindo ajuda, orientação e irradiando o conhecimento para a comunidade. Hoje, ele tem mais conselhos a dar do que receber?. Mirante do Talhado Fones: (82) 8874-9373 / 9972-2074 Site: mirantedotalhado.com.br e-mail: [email protected] Estação Aventura Expedições Fones: (82) 8824-7350/ 9939-5708 Site: estaçãoaventura.com.br e-mail:[email protected]