Cidades
A SUBVIDA NAS FAVELAS DE AL
Sob a sombra da ponte que cruza o vale mais de trinta metros acima, espremido no cubículo que é sua morada, um homem não esconde a angústia no olhar. Tem 37 anos apenas e onze filhos para criar. Está desempregado e não sabe como vai fazer para honrar o aluguel de R$ 50 da casa que mede um metro e meio de frente por menos de sete de fundo. Uma cortina no meio divide em dois vãos o minúsculo lar, carente de serviços públicos essenciais. ?Meu sonho é uma casa decente para criar meus filhos?, diz José Pedro da Silva. Ele é morador do Vale do Reginaldo, um dos 114 ?aglomerados subnormais? em Alagoas, termo usado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para denominar favelas, grotas, palafitas, baixadas, invasões e outras ocupações, em levantamento feito pelo Censo de 2010. Pedro é um dos 130.428 alagoanos que vivem nessa condição, divididos em 36. 202 desses domicílios precários, mais de 32 mil somente em Maceió. No Brasil, segundo levantamento do IBGE, em 2010 eram 11,4 milhões de pessoas, 6% da população do País, com quem os governos federal, estadual e municipal têm uma dívida que precisa ser honrada. ?A MORADA QUEM FAZ É CADA UM. ISSO AQUI PRA MIM É UMA BELEZA? No Vale do Reginaldo, até os corpos que se lançam em desespero do alto da ponte representa problema para quem vive lá em baixo. A qualquer momento um suicida pode romper o teto e explodir no chão da sala, ou sobre as crianças que brincam à beira do esgoto. Mas nada disso assusta José Joaquim da Silva. Do alto de sua experiência de vida e de seus 96 anos ele sentencia: ?A morada quem faz é cada um. Isso aqui, para mim, é uma beleza. Sei me comportar e sei respeitar os meus vizinhos. E isso faz com que eu seja respeitado?, diz Joaquim, que nasceu no interior de Pernambuco, de onde saiu para vir morar em Maceió. ?Já morei no Sovaco da Ovelha e estou há 18 anos aqui no Reginaldo?, conta. Aos 51 anos, Florisvaldo da Silva Moraes, o Zinho, nasceu e se criou no Vale do Reginaldo. Atleta de destaque na juventude, ele hoje desenvolve um projeto social para as crianças do Vale. ?Aqui, só 40% da comunidade tem água em casa. As crianças não têm espaço para lazer. O projeto de revitalização só prevê uma quadra de esporte, é muito pouco?. LM SONHO MAIOR AINDA É O DA CASA PRÓPRIA Há doze anos, Ana Maria de Lima, de 55 anos, divide sua existência com ratos, morcegos,baratas, escorpiões e outros insetos. ?Todo dia mato dois, três escorpiões. Não mato morcego porque morro de medo. Os ratos, o cachorro pega, o problema é que tem muitos?, conta Ana Maria, ao lado de neto, sentada na cama de madeira que ela mesmo fez, em seu barraco pendurado na encosta sob a ponte do Reginaldo, que liga os bairros do Farol e do Feitosa. ?Só comemos hoje porque os meninos trouxeram do sinal. Época de Natal e fim de ano, as pessoas sempre dão mais alguma coisa?. confessa. Natural de Quebrangulo, Ana está há 18 anos em Maceió. ?Moro embaixo da ponte porque não tenho para onde ir?, diz ela. Dentro da moradia precária, dividida por tábuas que demarcam os cômodos e enfeitada com motivos natalinos, moram ela, os quatro filhos e os quatro netos. Mesmo nessas condições, Ana Maria sonha e faz planos. LM NO ALTO DA BOA VISTA, CENÁRIO É DEGRADANTE SEVERINO CARVALHO - REPÓRTER Maragogi ? Do Alto da Boa Vista a visão de Maragogi é, de fato, bela. Tem-se uma panorâmica do mundo encantado de águas azuis em tons esverdeados, emolduradas pela maior barreira de coral da América Latina. Lá em baixo, o frenesi é constante: um vaivém de turistas e veranistas que vieram comemorar o réveillon no melhor estilo, lotando hotéis, pousadas e casas de praia; a mesa é farta. À medida que se sobe a Grota, porém, o paraíso vai se esvaindo. Cá em cima, o cenário é de degradação: fome, lixo, alcoolismo, desemprego, desamparo... O esgoto do Alto da Boa Vista desce o morro apressadamente e vai estourar na orla marítima de Maragogi maculando e poluindo o principal cartão-postal da cidade; talvez seja um aviso, um pedido de ajuda em forma de língua preta. O Alto da Boa Vista, assim como todo o Conjunto Adélia Lira, foi ignorado pelo governo do Estado quando da instalação da rede coletora e do sistema de tratamento de esgoto. As obras foram concluídas em 2006 e custaram cerca de R$ 11 milhões. O investimento deixaria a cidade totalmente saneada, mas não foi o que aconteceu. A coleta de lixo é deficiente lá no Alto da Boa Vista. O hábito da população de dispensar os resíduos nas grotas deixa o lugar ainda mais sujo e fétido, adubando a pobreza. CASAS AMEAÇAM DESABAR Seu Armando Amaro da Silva, 59 anos, também conhecido como ?Velho do Galo?, é um dos moradores mais antigos do Alto da Boa Vista. Subiu o morro há 20 anos tangido pelo êxodo rural e acossado pela especulação imobiliária que se expande nas áreas planas, perto do mar. Era morador de uma fazenda ou engenho, como dizem por aqui. Vive com o irmão inválido, José Amaro da Silva, 56, que repousa o dia inteiro sobre o lastro de uma cama. Os dois irmãos moram numa tapera sem energia elétrica, banheiro ou sanitário. ?Quando dá vontade, me meto na copeira?, apontou Armando, dois dentes na boca e um bigode enorme, talvez para camuflar os desfalques. A porta dos fundos da maloca não existe e ele mantém-se em constante vigília para não perder para os bandidos o mísero benefício recebido pelo irmão. Este apresenta problemas mentais. No teto, existem mais frestas do que telhas. As paredes de barro estão vazadas. ?Quando bate a chuva, eu fico procurando um lugarzinho dentro de casa para se encostar e não me molhar?, contou. SC MAIOR FAVELA FICOU FORA DE PESQUISA Maragogi ? Instituída pelo poder público em 2008, a maior favela de Maragogi, o Risca Faca, foi ignorada pela pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) dois anos depois. Ali vivem mais de 450 famílias, a maioria em decrépitos barracos de pau-a-pique. As moradias são desprovidas de saneamento, de água encanada, mas não de esperança em dias melhores. O pintor Edvaldo de Souza, 35 anos, lembra perfeitamente do dia em que teve a honra de receber em sua casa o prefeito de Maragogi, Marcos Madeira (PSD), e a promotora de Justiça, Francisca Paula de Jesus. Acompanhados de técnicos do Departamento de Estradas de Rodagem (DER), eles convidavam a família de Edvaldo a deixar a casa na Rua da Palha, à margem da AL-101 Norte. Assim como Edvaldo, centenas de outras pessoas foram obrigadas a sair da beira da pista, resultado da pressão exercida pelo trade turístico da cidade. Os empresários se queixavam às autoridades da péssima impressão que as taperas passavam aos turistas chegados ao segundo maior destino hoteleiro do Estado. SC LIXÃO GARANTE SOBREVIVÊNCIA FERNANDO VINÍCIUS - REPÓRTER Arapiraca ? As crianças que moram na favela do bairro Mangabeiras brincam entre sacos cheios de material reciclável recolhido do ?lixão? de Arapiraca. Os meninos e meninas são filhos, em sua maioria, de pessoas que sobrevivem do que recolhem no aterro sanitário vizinho da comunidade parcialmente atendida por serviços públicos. Enquanto os moradores das 300 casas de alvenaria do bairro de baixa renda têm água nas torneiras, abastecimento determinado pelo racionamento que atinge Arapiraca e cidades vizinhas há anos, a rede da Casal na Mangabeiras não chega aos cerca de 100 barracos erguidos nas encostas do bairro. ?Nós dependemos do carro-pipa que não sobe mais aqui porque no inverno o caminhão atolava e o lugar onde ficavam os tonéis para guardar a água está sendo usado para o pessoal separar e guardar o lixo reciclável?, explicou Valderez de Lima Silva, 33 anos, treze dos quais vivendo dentro de uma caixa d?água com marido e filhas. Sem uso desde a conclusão das casas que vê do alto de sua moradia improvisada, a família de Valderez decidiu ocupar a base de sustentação da caixa d?água que poderia minimizar a escassez do líquido para os favelados que fazem ?gato? para ter energia elétrica em casa.