Cidades
ESTRANGEIROS EM ALAGOAS
Pelos mais variados motivos eles vieram parar em Alagoas. Uns estão apenas de passagem, outros já fizeram do Estado um local fixo de moradia. Há até os que decidiram abdicar da própria nacionalidade para tornarem-se cidadãos brasileiros e, como dizem, alagoanos. Os estrangeiros estão por toda parte. Vindos dos mais diferentes locais, eles superaram dificuldades e hoje se consideram filhos da terra e muitos, daqui não querem mais sair. Os trâmites burocráticos para a permanência legal em Alagoas e as barreiras impostas pela nova língua e pelas diferenças culturais tornam-se entraves pequenos para quem escolhe o Brasil e, em especial Alagoas, para morar. De acordo com o Departamento Nacional da Polícia Federal (PF), até junho de 2011, o Brasil tinha 1,466 milhão de estrangeiros, contra 961.877 em dezembro de 2010. Em Alagoas, dados da Superintendência regional da PF mostram que 1.992 estrangeiros moram no Estado. O chinês Liang Jun Ying, 43 anos, compõe essa estatística. Ele passou a maior parte da vida no Brasil e está há 15 anos em Alagoas. Saiu da cidade de Gong Jong, onde morava na China, para se aventurar no País tropical e nunca mais voltou. Aqui, teve de superar as dificuldades na comunicação, por desconhecer o Português, e se adaptar aos hábitos brasileiros. VONTADE DE SE TORNAR BRASILEIRO Os estrangeiros podem permanecer legalizados no Brasil de várias maneiras, com vistos que podem ser de trânsito, de turista, temporário, permanente, de cortesia, oficial e diplomático, a depender de cada situação específica. De acordo com a Justiça Federal, a decisão sobre o tipo de visto que será concedido cabe ao Consulado Brasileiro. Em regra, para ter a autorização de residência no Brasil é preciso que o estrangeiro obtenha um visto consular junto à Representação Diplomática brasileira no país de residência do interessado. Excepcionalmente, poderá ser requerido um pedido de permanência. Neste caso, a competência é da Divisão de Permanência de Estrangeiros, do Ministério da Justiça. Além das pessoas que deixam seus países e permanecem legalizados no Brasil, com algum tipo de visto, existem também aqueles que decidem abdicar da própria nacionalidade para se tornarem, definitivamente, brasileiros. De acordo com a Justiça Federal em Alagoas, os processos de naturalização em Maceió dobraram nos últimos dez anos. Hoje, cerca de 20 deles chegam anualmente à 1ª Vara Federal. Desse número, todos conseguem alcançar o objetivo de ser brasileiro. SUL-AMERICANOS SÃO MAIORIA EM TERRITÓRIO ALAGOANO A maioria dos estrangeiros que vivem em Alagoas é originária da América do Sul. Segundo André Granja, grande parte deles vem de países como Argentina e Chile. Há também os que são originários da América Central. Já os europeus, seriam minoria. Segundo o juiz, a maioria dos estrangeiros vem ao Estado por causa de trabalho. Quando o processo de naturalização chega à Justiça, antes da emissão do certificado, os estrangeiros que querem se naturalizar têm de comprovar o domínio da língua e prometer cumprir os deveres dos cidadãos brasileiros. ?No âmbito judicial, nós analisamos se a pessoa domina a língua, se ela promete cumprir os deveres de cidadão brasileiro e se renuncia à nacionalidade anterior. Quando chega à Justiça Federal, o processo já está no fim?, afirma o juiz, destacando que, no âmbito judicial, dentro de no máximo dois meses, a pessoa já está com o certificado em mãos. Os irmãos argentinos Gabriela, 44, e Fernando Flores, 40, conseguiram, no último mês de abril, a naturalização brasileira. Morando no País há 35 anos, eles decidiram abrir mão da nacionalidade original para se tornarem, oficialmente, cidadãos brasileiros. Os processos demoraram cerca de dois anos e representaram um gasto médio de R$ 1.200, com documentação, autenticação, cópias, reconhecimentos e pagamento de taxas na Polícia Federal. BELEZA E CLIMA CHAMAM A ATENÇÃO DOS IMIGRANTES Depois de um tempo em Alagoas, o pai de Gabriela Flores foi transferido para Porto Alegre e a família deixou Maceió. Mas foi por pouco tempo, até que eles pediram para retornar. ?Porto Alegre é frio, tem o clima muito parecido com o da Argentina. Aqui não, o clima é maravilhoso e nós pedimos para voltar?, conta. Há dois anos, os dois irmãos decidiram requerer a naturalização e deram entrada no processo junto à Polícia Federal. Somente no último mês de abril eles conseguiram o certificado e, hoje, já podem dizer e comprovar, oficialmente, que são brasileiros. ?As pessoas que eu amo estão aqui. Tenho uma filha alagoana e adoro o Brasil. Sou alagoana. Gosto de sururu e de Djavan, por isso abri mão da nacionalidade argentina. Se for lá hoje, vou como estrangeira?, afirma a jornalista. O mais novo dos três irmãos, Fernando Flores, tinha apenas 6 anos quando veio para o Brasil, mas lembra com clareza o que mais chamou a sua atenção ao chegar a Alagoas. ?A beleza das praias e o clima agradável foram as duas coisas que me chamaram a atenção?, conta. Na Argentina, eles moravam na cidade de La Plata, onde chegaram a pegar uma temperatura de -14º. INTERCÂMBIO ATRAI AFRICANOS A angolana Keilan Jesus Oliveira Custódio, 22 anos, que está há quase dois anos em Alagoas, encontra nos amigos africanos a força para superar a forte saudade da família. Estudante de Administração da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Keilan é uma das pessoas beneficiadas por um convênio existente entre o governo africano e a Ufal e deve permanecer no Estado do qual ela nunca tinha ouvido falar por mais dois anos e meio. ?Quando conclui o Ensino Médio fiz a minha inscrição para tentar uma bolsa do governo angolano para estudar em outro país ou até mesmo em outra província. Já tinha até começado um curso lá em Angola quando fui sorteada para vir estudar no Brasil, em Alagoas. Nunca tinha ouvido falar desse Estado, mas decidi arriscar e estou aqui?, falou a estudante. Segundo ela, quando os africanos se inscrevem para concorrer a uma bolsa de estudos, não têm a opção de escolher em que país ou província querem estudar. ?Nós apenas concorremos, sem ter opção de escolha?, fala. INTERNET AJUDA A ALIVIAR A SAUDADE DE CASA Já adaptada aos costumes dos brasileiros, Keilan conta que a saudade é o que mais maltrata o grupo de africanos que está longe de casa. A solução encontrada por ela e pelos mais de 40 africanos que também vieram estudar em Alagoas, para superar a ausência dos entes queridos, é manterem-se unidos. O grupo costuma se reunir para almoçar, comemorar datas importantes relacionadas aos seus respectivos países e para compartilhar fatos da rotina diária. Uma união que acaba formando fortes laços de amizade e que ameniza a tristeza trazida pela saudade. ?A comunidade africana aqui é muito unida. Procuramos sempre almoçar juntos no Restaurante Universitário (RU) e compartilhar o que acontece. A saudade é demais e temos que arranjar uma maneira de não nos sentirmos sozinhos. Também procuramos comemorar as datas importantes para os países africanos. Julho é o mês da Independência de Cabo Verde e nós já estamos planejando um churrasco com música típica para comemorar e compartilhar com os cabo-verdianos a independência deles?, conta Keilan. EXIGÊNCIAS VÃO DESDE DOCUMENTOS A TESTES DE SAÚDE Antes de vir para o Brasil, Keilan passou por uma verdadeira maratona de entrega de documentos e certidões solicitados pela Embaixada do Brasil em Angola. ?São muitos os documentos, testes de saúde e exames de sangue. Também tive que tomar várias vacinas antes de vir morar aqui?, afirmou. Já em Alagoas, Keilan trouxe uma carta lacrada, que foi entregue por ela à reitora da Ufal. ?É uma carta fechada, que só a Ufal pode abrir, e que é enviada pelo governo angolano e pela Embaixada do Brasil na Angola. O que tinha escrito nela, eu nunca soube?, brinca. Anualmente, Keilan e todos os outros estudantes africanos que estão em Alagoas renovam o visto de permanência no País, na Polícia Federal, e assim podem continuar morando no Brasil legalizados. Apesar de vir de um país de língua portuguesa, Keilan fala que encontrou um pouco de dificuldade na comunicação ao chegar ao Brasil, mas diz que vem superando as diferenças com o apoio dos colegas de universidade.