Cidades
A MORTALIDADE INFANTIL EM AL
Da barriga da mãe para a luz e o caixão. Do início ao fim da vida em tão pouco tempo, a mortalidade infantil é um fantasma que assombra Alagoas. Há décadas, o Estado é o recordista da taxa de óbitos de crianças abaixo de um ano de idade, com o dobro da média nacional. No apagar das luzes de 2011, o governador Teotonio Vilela Filho anunciou uma redução gigantesca deste índice, deixando Alagoas no 11º lugar do ranking decrescente, com o coeficiente de 21,5 mortes para cada mil nascidos vivos. Um número extraordinário. Muito abaixo das 46,4 mortes para cada mil do último coeficiente apresentado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para Alagoas. O anúncio revolucionário do governo não poderia acontecer em época mais simbólica: às vésperas do Natal. Só ficou um pouco abafado pelo período de férias, compras, arrastões, praias, incêndios a ônibus e festas. No réveillon do governo, a notícia é comemorada aos estouros de champanhes. No entanto, ainda há dúvidas se houve uma redução tão imensa na morte de bebês, de fato, ou a estatística caiu por causa de mudanças na metodologia e busca dos dados. A falta de critérios oficiais, a incongruência entre dados demográficos e da área de saúde e o disparate dos números transformam a taxa de mortalidade infantil numa incógnita. ÍNDICES DIVERGEM ENTRE ÓRGÃOS Para a Sesau, os dados do Ministério da Saúde são confirmados pelo cruzamento de informações do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), Sistema de Informação da Atenção Básica (Siab) e Autorizações para Internação Hospitalar (AIHs). Após o estudo do Ministério da Saúde, estes dados confirmam uma curva descendente, caindo da taxa de 21,5 em 2008 para 17,1 em 2010. O resultado foi obtido com a fração de 925 mortes do SIM para 54 mil nascimentos do Sinasc. Quando os números começavam a se aquietar, a divulgação de resultados do censo 2010 do IBGE traz novos sobressaltos, mas desta vez variando para baixo. Ao invés dos 925 casos, o censo subnotificou 749 óbitos para 52.559 nascidos vivos. Com isso, a taxa de mortalidade cairia para 14,2, um número bem distante dos 46,4 divulgados pelo mesmo IBGE, relativos à PNAD do ano anterior ao recenseamento. MG DIFERENÇA SE DEVE A MÉTODOS ADOTADOS Como pode a mesma taxa de mortalidade infantil em Alagoas ser tão diferente? Além da Sesau, o Ministério da Saúde (MS), a Fiocruz, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef, na sigla em inglês) e profissionais da área de saúde reconhecem a nova metodologia de busca ativa como mais fidedigna que os dados demográficos do IBGE, principalmente de amostragens feitas por estimativas como a PNAD. O presidente do Conselho Estadual de Defesa da Criança e do Adolescente, pediatra Cláudio Soriano, afirma que o IBGE tem dados falhos, baseados em superestimativas, enquanto o Ministério da Saúde utiliza uma correção e se baseia em registros recolhidos em unidades de saúde. ?Não se pode ter a ilusão de que a taxa caiu pela metade entre 2007 e 2008?, frisa Soriano, que também é diretor da Sociedade Alagoana de Pediatria e representante do Comitê Estadual de Mortalidade Infantil. O pediatra destaca que a diferença também se deve à nova metodologia adotada na busca de informações. ?A gente ainda não tem elementos para comparar, porque havia uma subnotificação muito grande, mas, analisando os números quantitativos dos óbitos, pode-se dizer que houve uma redução nos últimos dez anos?. DRAMA MARCA GERAÇÕES NA SURURU DE CAPOTE ?Se Deus levou, vou fazer o quê??. O conformismo esconde o sofrimento da catadora de sururu e de lixo, castigada pela vida e pela morte numa favela da orla lagunar de Maceió, alheia à polêmica das estatísticas. Roberta dos Santos tem 36 anos e seis filhos. Deveria ter sete, mas ?Deus levou? a pequena Cristiane, aos 4 meses de vida. ?Fazer o quê??. Cuidar dos outros e arrumar comida para que não outro morram também. Mortalidade infantil é algo comum às famílias da Favela Sururu de Capote, tanto as que foram transferidas como as que ficaram. Os motivos são variáveis e se complementam (desnutrição, falta de atendimento médico, péssimas condições de moradia, falta de saneamento e um longo etc), mas as mães simplificam. ?Foi porque tinha de ser, foi um vento que passou, o leite do peito secou...?. ÓRGÃOS DEFENDEM ESTATÍSTICAS Mesmo com a estúpida diferença para os números do Ministério da Saúde, o gerente de projetos do IBGE em Alagoas, Neilson Negrão, destaca que apenas as estatísticas do órgão são reconhecidamente oficiais, inclusive regulamentadas por decreto presidencial. O coordenador estadual da PNAD, Haroldo Farias, tenta evitar a polêmica e afirma que não poderia explicar detalhes sobre a metodologia, mas destaca a importância e seriedade do trabalho de amostragem. ?A PNAD faz um cadastro por setores, com uma listagem de onde são retirados alguns domicílios para fazer a amostra. Em 2009, usamos 22 entrevistadores para investigar 2.040 domicílios em doze municípios?. Além de Maceió, a PNAD foi a Pilar, Arapiraca, Palmeira dos Índios, Belo Monte, Anadia, Campo Grande, São Brás, Jundiá, São Luiz do Quitunde, Água Branca e Ouro Branco. Na capital, foram 673 domicílios em vinte bairros. Pela fração da amostra, cada município pesquisado equivale a 450. Parece pouco, mas a abrangência é ainda maior que a do estudo Saúde Brasil 2010, realizado pelo Ministério da Saúde ? que também foi feito por amostragem, com pesquisa em Maceió e mais quatro municípios alagoanos.