Cidades
A PAIX�O QUE MANT�M VIVA UMA TRADI��O
Tradição nessa época do ano em Alagoas, o boi mobiliza não só quem participa diretamente da brincadeira, mas também toda a comunidade, que acaba sendo contagiada pelo ritmo forte da batida produzida pela bateria. Com a proximidade do carnaval, as sedes dos bois localizados na capital ficam movimentadas. É um entra e sai que não tem fim, com o objetivo de deixar tudo pronto para o grande dia da apresentação. Enquanto esse dia não chega, os bois seguem levando a animação durante os ensaios pelos bairros da capital. O pequeno Wendel Monteiro de Araújo, 3 anos, apesar da dificuldade de pronunciar as primeiras palavras, já tem a música do Boi Dragão, da Pajuçara, na ponta da língua. Com uma lata e duas baquetas improvisadas nas mãos, ele brinca de bumba-meu-boi, demonstrando desde já o encantamento e a vontade de participar do folguedo. ?Eu vou tocar no boi?, diz o menino, não escondendo a torcida pelo representante da Pajuçara. ?Eu gosto do Boi Dragão?, afirma. LENDA CONTA A ORIGEM DO COSTUME Uma lenda também gira em torno da história do bumba-meu-boi, trazendo ainda mais mistérios e encantos para esse folguedo popular. Na ponta da língua de todos os apaixonados pelo boi, a lenda conta que a esposa de um vaqueiro chamado Francisco, que estava grávida, teve o desejo de comer rabada de boi. A única maneira encontrada pelo vaqueiro para satisfazer o desejo da esposa foi matar o animal de estimação do patrão dele. E assim foi feito. Ao ficar sabendo que o boi tinha sido morto, o patrão ficou enfurecido, mas antes mesmo de tomar as medidas para punir o funcionário, o animal ressuscitou e foi realizada uma grande festa. Para os que acreditam na história contada há gerações, foi daí que surgiu o bumba-meu-boi. ?Essa lenda também surgiu no Maranhão e tem os dois principais personagens do folguedo: o boi e o vaqueiro?, diz Luiz de Barros. A brincadeira do bumba-meu-boi é democrática, homens e mulheres de várias idades podem participar, seja dançando, encarnando uma das alegorias, produzindo o batuque que garante a animação, sendo o vaqueiro ou mesmo conduzindo o boi ? papel que exige muita força e, por isso mesmo, não é desempenhado por mulheres. FESTA ATRAI NOVOS GRUPOS Há exatos vinte anos, quando Luiz de Barros organizou o primeiro concurso de bumba-meu-boi de Maceió, apenas cinco grupos se candidataram a participar. De lá para cá, a tradição foi ganhando mais adeptos. De acordo com o presidente da Liga dos Bois de Maceió, Eugênio Vilela, existem na capital, atualmente, 35 grupos de bumba-meu-boi. Em todo o Estado, Luiz de Barros acredita que esse número ultrapasse os 300. ?Eu comecei a organizar o concurso aqui em frente à minha casa. No primeiro ano só apareceram cinco grupos e depois foi crescendo. Antes, ninguém ouvia falar em boi em Maceió, apesar de ele existir há muito tempo. Na minha infância, em Viçosa, eu sempre admirei os grupos de bumba-meu-boi, apesar de nunca participar. É essa paixão que vem desde criança que me inspira a incentivar e manter essa tradição?, conta Luiz de Barros, que este ano será o grande homenageado no 20ª Concurso de Bumba-Meu-Boi de Maceió, que acontece no fim de fevereiro. PREPARATIVOS DURAM MAIS DE SEIS MESES Existente desde a década de 80, o Boi Dragão conta atualmente com a participação direta de cerca de 60 pessoas, mas o número de envolvidos no folguedo é incalculável, já que muitos ? moradores do bairro, familiares dos participantes e até comerciantes ? deixam-se encantar pelo boi e acabam ajudando da melhor maneira que podem. ?Essa máquina de costura mesmo é de uma vizinha, que deixou aqui para que a gente costurasse algumas coisas?, conta Jorge Luiz. Os preparativos para que o boi saia às ruas durante o carnaval têm início na época junina do ano anterior, quando são definidos tema e cenário, e discutido o orçamento necessário para materializar tudo o que foi planejado. Os ensaios também começam cedo, no fim de novembro, sendo intensificados em janeiro, quando são realizados dois por semana. O amor pelo boi, segundo Jorge Luiz, é algo inexplicável, que o acompanha desde muito pequeno. ?É uma coisa que vem desde criança. Eu sempre via o boi sair às ruas no carnaval. Meu pai não me deixava participar, mas sempre me levava para assistir às apresentações, e eu ficava pensando que um dia, quando me tornasse independente, estaria lá, participando da brincadeira. E foi o que aconteceu?, afirma. PATRIMÔNIO CULTURAL É REPASSADO ÀS NOVAS GERAÇÕES No bairro do Jacintinho, o Boi Safári investe alto para levar beleza e alegria ao público. São cerca de R$ 7 mil em adereços, vestimentas, cenário e instrumentos todos os anos. Formado atualmente por cerca de 120 pessoas do bairro, o Boi Safári também é um ?bem? de família, tendo sido criado pelo primo de Francisco Gustavo, atual responsável pelo boi. O nome Safári, por sua vez, foi uma escolha da mãe de Francisco. ?Ela achou esse nome bonito e nós colocamos?, fala. Assim também acontece na família de Eziel Araújo, 25 anos, responsável pelo Boi Cobra Negra, da Jatiúca. Há 18 anos, ele e o irmão mais velho, Ezequiel Araújo, 31 anos, se dedicam à tradição do bumba-meu-boi. Mais que isso. Já passam o aprendizado adquirido ao longo desses anos para as novas gerações. ?Aqui é coisa de herdeiro. Vai passando de um para o outro. Meus sobrinhos de seis e dez anos já sabem tocar. Eles ainda não participam porque são pequenos, mas sempre que acontecem os ensaios eles estão lá. O bumba-meu-boi é uma coisa que não dá retorno financeiro, pelo contrário, e o que nos faz mantê-lo é o amor, a paixão. Quem faz, faz porque ama, porque gosta muito?, diz Eziel Araújo. CONCURSO CHEGA À 20ª EDIÇÃO Este ano, o Concurso de Bumba-Meu-Boi de Maceió chega à 20ª edição, fazendo uma homenagem ao criador da competição que tem levado o colorido e a animação para as ruas da cidade durante todos esses anos: o radialista aposentado Luiz de Barros. Além de os três melhores bois receberem troféus, também são escolhidos pela comissão julgadora do concurso o melhor vaqueiro, o melhor condutor e a melhor bateria. A novidade para deste ano, segundo o presidente da Liga dos Bois de Maceió, Eugênio Vilela, é a premiação simbólica em dinheiro para os melhores vaqueiro e condutor. ?A apresentação dura vinte minutos, que começam a ser contados a partir da arrumação. Para eleger o melhor boi são avaliados a originalidade dos ritmos, o conjunto, as fantasias, a evolução do vaqueiro e do boi, além das alegorias e adereços?, diz Eugênio Vilela. No dia do concurso, cada boi faz sua apresentação dentro de um tema escolhido livremente. LIVRO REÚNE HISTÓRIAS SOBRE CARNAVAL LELO MACENA - REPÓRTER O gosto pela literatura surgiu na infância, dentro da biblioteca do antigo Colégio Batista, no alto do Farol, de onde, ao folhear as páginas dos clássicos de Graciliano Ramos, Raul Pompéia e Machado de Assis, ele apreciava o belo visual da Praia da Avenida e do porto de Jaraguá. O deslumbramento pelo carnaval veio anos depois, na adolescência, no salão do Clube Fênix Alagoana, durante uma de suas saudosas e inesquecíveis matinês. Encantou-se de tal maneira que tornou-se para sempre folião dos mais animados, assim como pesquisador dos mais curiosos e minuciosos sobre o assunto. Pois são as duas paixões do médico Marcos Davi Melo que se fundem para dar forma ao livro Pintando o passo, uma reunião de artigos e ensaios sobre o carnaval, fruto de muita pesquisa e de nada menos que três décadas de muito frevo pelas ruas de Recife e pelas ladeiras de Olinda. Vivência que o habilitou a fundar, em Maceió, o bloco Pinto da Madrugada, em dezembro de 1999. OVO DA MADRUGADA ANIMA FOLIÕES EM PENEDO FERNANDO VINÍCIUS - REPÓRTER Penedo ? Inspirado no Galo e no Pinto da Madrugada, o bloco carnavalesco Ovo da Madrugada leva para as ruas de Penedo orquestras de frevo para puxar a agremiação, que dispensa o uso de cordas de isolamento durante o único desfile realizado a cada ano. Mantendo tradições passadas pelos blocos mais democráticos dos carnavais de Pernambuco e Alagoas, o Ovo da Madrugada chega ao seu quarto ano, no próximo sábado, 4 de fevereiro. Os organizadores da agremiação criada em 2009 acreditam que pelo menos 4 mil pessoas estarão na festa, que reúne bonecos gigantes, passistas, foliões fantasiados, ambulantes e seguranças, que trazem na bagagem a experiência de atuar no Pinto da Madrugada. O roteiro não foge à regra dos anos anteriores: concentração a partir das 9 horas, na Praça Jácome Calheiros, popular Praça do Coreto, onde quatro orquestras iniciam a retreta que segue até a orla e volta ao ponto de partida, isso já no fim da tarde.