Cidades
RETRATO DA DESIGUALDADE SOCIAL
O sol nasce para todos? Até nasce, mas queima bem diferente. Na foto principal da primeira página da Gazeta o casal com tênis de marca, sunga, protetor solar, canga rosa e óculos escuros passeia com o cachorrinho de raça no calçadão da Ponta Verde. Eles viram o rosto e prendem a respiração quando passam por um contêiner de lixo, melhor olhar para a praia. Outro casal está totalmente voltado para este mesmo lixo, revira sacos, separa papelões, latas, garrafas pet e ainda procura restos de comida para saciar a fome. Para uns, o sol é lazer; para outros, castigo, obstáculo a superar no dia quente de trabalho. Os casais se cruzam a poucos centímetros. Tão próximos e tão distantes, separados por um abismo social chamado miséria. A cena congelada pelo olhar atento do repórter fotográfico Felipe Brasil expõe uma chaga brasileira. É o retrato fiel da convivência de mundos paralelos, mas alheios entre si. Pobres e ricos se tornam quase invisíveis uns aos outros. Eles não se enxergam, ou fingem que não se veem, ou torcem o pescoço para não olhar. A miséria se escancara a um palmo do nariz, mas parece que ninguém está nem aí. Faz parte da rotina. Sobre os ombros, nenhum peso. Apenas a toalha de listras coloridas, a bolsa de praia estilosa ou os molambos de camisas nos ombros dos catadores de lixo.