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Favelados reivindicam moradias dignas para deixar �reas p�blicas

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As declarações do governador Ronaldo Lessa de que os espaços públicos não são locais a serem ocupados por favelados causam revolta entre as famílias que vivem em condições de miséria, em ambientes onde imperam a fome, as doenças e a falta de cidadania em geral. Muitos que habitam hoje a Favela Sururu de Capote, às margens da Lagoa Mundaú, não suportam mais as degradantes condições de vida a que são submetidos e até aceitam deixar a favela, desde que o governo do Estado ou a Prefeitura de Maceió encontre uma alternativa de moradia para as famílias. Dona Edite Maria da Silva, 72, vive há 10 anos na favela e gostaria muito de dispor de uma casinha de tijolos para morar. Mas a falta de uma moradia digna não é o seu maior problema. Ela sofre ainda mais com a fome, sobretudo numa idade avançada, sem forças e sem chances de encontrar meios de sobrevivência lá fora. ?Ontem, só comi porque minha filha me deixou aqui com a neta e dois pacotinhos de macarrão de preparo rápido?, afirmou Edite ao se referir à pequena refeição que dividiu com a neta. A anciã não tem móveis em seu barraco, dispõe de apenas um colchão e uma tábua improvisando uma mesa. O filho, servente de pedreiro, conseguiu, há um mês, fazer um ?bico? numa obra, mas segundo Edite, ele enfrenta problemas mentais e a família está entregue a todas as dificuldades imagináveis. Na região, ela teme a elevada violência registrada no Dique Estrada. Fome endêmica Em cada um dos barracos vizinhos há uma história triste, de uma gente sofrida, que desconhece qualquer política pública que a torne cidadã. Mais adiante, num barraco apertado e com enormes buracos no plástico negro que o cobre, nas tábuas e pedaços de madeira estragados, moram dois adultos, dois adolescentes e três crianças pequenas, entre elas um recém-nascido de cinco meses. A dona da ?casa? é Maria de Lourdes Andrade de Araújo, cuja filha, Elisângela Andrade da Silva, de 16 anos, já é mãe das três crianças pequenas. Nos braços da avó, a pequena Jaciara não havia feito nenhuma refeição, pois a família não dispunha de leite. Na panela, cinco pedacinhos de salame para ser misturado à farinha, servindo-se assim a primeira refeição do dia a toda família, com exceção de Jaciara, que precisaria tomar leite. No quadrado em que moram só há uma cama, escorada por tijolos, que abriga todos. O fogão está sem uso porque o gás acabou e não havia qualquer perspectiva de adquirir um novo botijão. Para aquecer o salame, a mãe usava algumas garrafinhas de álcool, um risco de incêndio. Para completar o quadro de miserabilidade, o único homem da casa, um adolescente sorridente de 15 anos (apresenta uma cárie bem nítida ao sorrir), que nunca freqüentou uma escola, é cego de um olho. Ele explicou que a deficiência foi provocada por um ataque de marginais na rua. O menino voltava para casa com um dinheirinho conseguido com a venda de verduras quando foi agredido e roubado. A cegueira foi conseqüência da violência sofrida. Diante de tanta miséria, o mais urgente para essa família é matar a fome que os mata aos poucos. Sair da favela passa até a ser uma questão secundária, diante de tanto sofrimento, mesmo assim Maria de Lourdes é taxativa: ?A gente só sai com a garantia de outro lugar para viver?.

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