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Inje��o mensal de R$ 66 milh�es alavanca economia

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A nova pobreza deu um bofetão na cara da economia alagoana. A lógica perversa do Estado queimado e cortado pela monocultura da cana não é mais a mesma. Uma corrente de economistas locais defende que há um fato novo na economia de Alagoas. Neste grupo, o doutor pela Universidade de Córdoba, na Espanha, e professor da Ufal, Cícero Péricles, explica que um terço do nosso Produto Interno Bruto (PIB) é formado por políticas sociais permanentes (em boa parte, pelo Bolsa Família) e por transferências de recursos federais. No livro Economia popular, uma via de modernização para Alagoas, que chega à 6ª edição com 6 mil exemplares, Péricles observa que a federalização do Estado está permitindo a ampliação do mercado interno e a articulação da economia nos bairros populares e nos municípios do interior. ?Esse fato novo na economia alagoana abre as janelas para superar o atraso de um modelo de crescimento desigual e excludente?, defende o economista, logo na contracapa do livro, publicado pela Edufal. E a injeção mensal de R$ 65,9 milhões do Bolsa Família no Estado é a mola mestra desta revolução na distribuição de renda e nos costumes. São quase R$ 800 milhões por ano, o equivalente a muita cana para moer. Vai tudo diretinho para o comércio e faz a roda da economia popular girar, como frisa o professor Péricles, ?diferentemente dos anúncios de factoides, investimentos mirabolantes que não se materializam e expectativas que nunca se confirmam?. Se o estaleiro não sai do papel, é o investimento na bodega, na feira, na informalidade que dá força à nova economia alagoana. Cícero Péricles alerta que existe um componente de preconceito e desconfiança contra o Bolsa Família que parte da ?classe média alagoana, branca, reacionária, que não tolera a distribuição de renda?. O economista lembra que o subsídio concedido para a indústria com isenção fiscal entre 2012 e 2013 deve chegar a R$ 80 bilhões, enquanto o Bolsa Família custa R$ 12 bilhões por ano. ?Eu nunca vi ninguém falar da isenção para a indústria automobilística de forma pejorativa?, compara Péricles. A celeuma provocada pelo boato do fim do Bolsa Família motivou a Gazeta a procurar o economista para comentar o assunto. Após contatos por telefone, trocas de e-mail e uma boa conversa no apartamento dele, surgiu a seguinte entrevista. Gazeta de Alagoas. Se o boato sobre o fim do Bolsa Família fosse verdade, que tipo de impacto poderia provocar? Cícero Péricles. Em função da diversidade regional brasileira, as consequências teriam formas diferenciadas. Em alguns Estados mais ricos, o impacto seria pequeno, a exemplo das unidades do Sul e Sudeste; já no Nordeste, os efeitos seriam muito fortes. São sete milhões de famílias beneficiadas, num universo de 16,5 milhões de famílias nordestinas, ou seja, 40% da população da nossa região dependem, em diferentes graus, desse recurso mensal para atender parte de suas necessidades alimentares. Como ficariam as famílias beneficiadas e a economia local que gira em torno delas? O Bolsa Família não é uma renda básica, como a previdência social, cujo valor, das pensões e aposentadorias, está vinculado ao salário mínimo. O pagamento mensal do Bolsa Família é muito limitado, uma média de R$ 155, que uma família muito pobre recebe em troca de algumas condicionalidades, como ter um filho na escola, assistir cursos básicos de saúde. O problema está no fato de que, em Alagoas, a pobreza extrema é significativa e o Bolsa Família passou a ter um papel muito importante na economia local. Das 900 mil famílias alagoanas, 428 mil recebem recursos do programa; quase metade da população. Esses recursos mensais, em torno de R$ 66 milhões mensais, ajudam a movimentar a economia das localidades ? bairros e municípios mais pobres ?, principalmente no setor de comércio e serviços. Afinal, são quase 800 milhões de reais, por ano, que vão diretamente para o consumo. Depois de uma década, o Bolsa Família está incorporado ao cotidiano da metade dos alagoanos; e é essa amplitude e os seus valores que ajudam a explicar o clima negativo criado pelo boato. Além do perfil quantitativo de renda per capita, qual o perfil subjetivo desses beneficiários? O Bolsa Família tem reforçado o papel das mulheres na condução das famílias. Como o programa é orientado a entregar o dinheiro para a chefe de família, esse recurso rende mais, pelo maior compromisso e sensibilidade que as mães têm em relação às crianças, aos filhos. Uma pesquisa nacional recente feita pela socióloga Walquíria Leão Rego, da Unicamp, São Paulo, teve muito destaque na grande mídia porque mostra a importância do Cartão do Bolsa Família que, mesmo de baixo valor, vem mudando o comportamento de parte das beneficiárias, que são mulheres pobres e donas de casa que, na sua ampla maioria, nunca tinham recebido dinheiro. Eles conseguem mesmo romper a linha da extrema pobreza? Solitariamente o Bolsa Família não consegue superar essa linha. A renda é apenas um dos aspectos da pobreza. A lógica é a de conectar esse recurso ao atendimento das redes públicas de educação e saúde, investindo na formação dos pais, quando possível, e na melhoria da habitação com energia e saneamento. O programa melhora o quadro social, mas a superação da pobreza extrema vem mesmo com o trabalho ou com alguma iniciativa particular que gere renda suficiente para as necessidades familiares. O que eles fazem com esse dinheiro? Compram comida. Basicamente esse dinheiro vai diretamente para a feira, padarias, mercadinhos e outros pontos de venda de alimentos, onde é transformado numa cesta de produtos da dieta básica popular. Nos segmentos mais pobres, a demanda por alimentos é a necessidade mais urgente, muito antes do vestuário, remédio, transporte ou material de limpeza e higiene pessoal. É isso que ajuda a explicar o movimento e a dinâmica da rede comercial localizada nos bairros populares.

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