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Refugos humanos vivem na Cidade do Diabo

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ROBERTO VILANOVA A fome crônica de quem não tem absolutamente nada para se alimentar e virou refugo social; os assaltos diários, ousados, que obrigaram os comerciantes a se proteger com grades de ferro e segurança particular transportaram para as favelas de alvenaria, construídas pela Prefeitura de Maceió em torno do Conjunto Benedito Bentes, a violência que antes era conhecida apenas nos morros do Rio de Janeiro. Igual ao cinema, como Cidade de Deus, a disposição das casas e o terreno ? um platô ? lembram a realidade da favela carioca, cenário e enredo do filme nacional de maior sucesso de bilheteria. A diferença está na distância geográfica e na denominação ? em Maceió é a Cidade do Diabo, com cinco assaltos por dia, assassinatos e estupros. A situação só não é pior porque a professora Genilda Franco e o empresário Guido Bittencurt distribuem diariamente sopas, frutas e verduras com os favelados. Mas todos temem a violência. O inferno Um dos primeiros moradores do Loteamento Bela Vista, Experidião dos Santos, 55, aposentado por invalidez, é um dos líderes comunitários do local. Natural de Boca da Mata, ele perdeu o olho direito com a explosão da bateria do trator que operava na Usina Triunfo e hoje se diz cercado pelo inferno. ?Isto aqui, antes, era uma tranqüilidade. Não havia violência. Depois que a Prefeitura construiu esses conjuntos (Freitas Neto e Carminha) a violência chegou e não livra ninguém?, desabafou o líder comunitário. A área em torno do Conjunto Benedito Bentes virou um complexo de favelas sem controle. Não há policiamento e quando a polícia é chamada chega sempre atrasada. A comunidade pediu a instalação de um posto policial, mas o comando do 5º Batalhão da Polícia Militar, sediado no Tabuleiro do Martins, informou que não tinha condições de construi-lo. ?A gente chama a polícia, mas sabe que não adianta muito, pois há demora em atender ao chamado e os bandidos se escondem nas grotas?, reclamou dona Lúcia, dona do Mercadinho Deus é Fiel, assaltada várias vezes pelo mesmo bando. A ousadia Pedro, pedreiro, e o vizinho tiveram as casas arrombadas em pleno dia. Os ladrões só não levaram o que era pesado, como a geladeira e o som. Outro morador, Cícero, acordou com cinco homens dentro de casa ? um deles lhe desferiu um golpe de facão na cabeça; ele se defendeu com o braço e levou um corte que pegou vinte e dois pontos. ?Antes os ladrões agiam de madrugada, hoje eles vêm à luz do dia, armados e se você não entregar o que tem eles atiram mesmo?, completou dona Lúcia, ainda traumatizada com os assaltos seguidos ao mercadinho. No último assalto, ocorrido há quinze dias, a ousadia dos ladrões foi testemunhada pelo vendedor que veio fazer uma entrega de cereais. ?Por azar ele chegou no momento do assalto. Estava com o filho de dez anos de idade. Os assaltantes colocaram o revólver na cabeça do menino, arrastaram o vendedor de dentro do carro, tomaram tudo o que ele tinha e foram embora a pé. Isto nunca tinha acontecido antes. Como não havia muito dinheiro, eles levaram a balança eletrônica?, narrou dona Lúcia, que depois desse assalto decidiu colocar a grade de ferro - o cliente agora fica do lado de fora. O arrastão Mas o pior ainda estava para acontecer e a vítima, que ainda não se refez do susto, até hoje tem medo ? ela se identificou apenas por Maria. Eram 15 horas quando uma caminhonete estilo pampa parou em frente de sua casa; três homens desceram, renderam a família e colocaram na carroceria sofá, mesa, geladeira, televisão e o aparelho de som. ?Parece mentira, mas pergunte aí para todo mundo: um deles voltou e exigiu que meu marido entregasse as notas fiscais dos eletrodomésticos. E avisou: se a gente prestasse queixas à polícia ele voltaria para se vingar?, contou Maria, que optou por aceitar a perda, ou seja, não prestou queixas à polícia. ?Não iria adiantar mesmo. O que a polícia deve fazer é vistoriar todas as casas que vendem móveis e eletrodomésticos usados, para saber a procedência. Esses assaltantes agem assim porque têm a quem vender os produtos roubados?, desabafou. O assalto na casa de dona Maria, pelo método e a ousadia, é inédito na crônica policial alagoana. ?Contando ninguém acredita, mas estão aí as testemunhas. Muita gente viu, mas não pôde fazer nada. Eram cinco homens, três entraram na casa e dois ficaram do lado de fora, armados, ameaçando quem se aproximava. Essa é a nossa situação. Vivemos aqui sem segurança e sem ter para quem apelar?, disse Maria.

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