Cidades
Quando a gente menos espera, a vida passou
O tique-taque é mais lento que o coração. Depois de consertar uma infinidade de engrenagens minúsculas, o relojoeiro Antônio Marcolino da Silva, 76 anos, percebeu que o ritmo dos ponteiros não acompanha a velocidade das pessoas, no mundo ao lado de fora dos relógios. ?Para quem trabalha com relógio, o tempo passa mais ligeiro, a gente olha muito para as peças e esquece o tempo. Quando menos espera, a vida passou?. Seu Marcolino nasceu em Santana do Mundaú. ?Trabalhei na roça, fui cassaco de rodagem e fogueteiro (queimei o cabelo duas vezes)?. Até se encontrar com os aparelhos de medir o tempo. ?Hoje, o relojoeiro não está ganhando nada?, frisa, mas ele já juntou fortuna com o ofício. ?Foi naquela época do relógio automático, tinha o Mondaine, Movado, Eternamatic, funcionava no rotor para dar corda. Em 1978, eu tinha dinheiro, três milhões na gaveta?. Marcolino conta que perdeu tudo por causa de uma cheia e de um político malandro que o enganou. ?Todo político calça 40, é tudo igual, gostou da minha proposta??, brinca o homem do tempo. O ponteiro anda, o tempo passa e nem sempre a lucidez acompanha a velhice.