Cidades
Arlene Miranda � sepultada
Década de 1950. O telecoteco datilográfico, a fumaça do cigarro, gravatas e calças compridas formavam o ambiente da Gazeta de Alagoas, na Rua do Comércio, número 1.515. Só havia homens, e todos ficaram surpresos quando a adolescente Arlene Miranda adentrou à redação para se tornar a primeira mulher jornalista de Alagoas. ?Eu era redator da Gazeta. Na época, mulher não entrava lá, mas chegou aquela menina de 15 anos perguntando: ?quem é o repórter, tenho uma poesia para publicar??, lembrou, ontem pela manhã, o jornalista, radialista, escritor e poeta Cavalcanti Barros, durante a despedida da amiga de longa data, no Cemitério Parque das Flores. Arlene Miranda partiu aos 76 anos, vítima de problemas cardiorrespiratórios, após uma rica contribuição literária e longa jornada de atuação em alguns dos principais jornais do país. O poema O Palhaço foi publicado naquela mesma semana, com o aval do então editor literário, Carlos Moliterno, que se tornaria um dos maiores expoentes da poesia alagoana, imortal da Academia Alagoana de Letras. Daí para se tornar jornalista e conquistar o apoio dos colegas de batente foi um sopro. ?Daquele dia, a gente não desapegou até hoje. Ela era assim, amiga de todas as horas, minha confidente, grande jornalista, mas acima de tudo poetisa?, completa Cavalcanti, o ex-ator de radionovelas, com um brilho intenso e marejado nos olhos cristalinos que viram o passar das décadas, sempre com Arlene por perto.