Cidades
Moradores fecham rodovia e entram em confronto com o Bope
Pista bloqueada, moradores revoltados, quilômetros de congestionamento. Após cinco horas de protesto, a chuva cai e o Bope chega. A rodovia BR-424, próximo à ponte do Broma, vira um campo de batalha. De um lado balas de borracha, spray de pimenta e bombas de efeito moral. Do outro, pedras, paus e ranger de dentes. Durante o conflito, uma mulher aparece bem no meio do fogo cruzado e, alheia ao perigo, parte em direção ao pelotão policial. Com a coragem dos mártires e a força de um titã no brilho dos olhos, ela bate a mão na caixa dos peitos e grita: ?Meta uma bala aqui e me mate também?. Por um instante, todo o alarido cessou e o desespero da mulher congelou o avanço do Bope. A dona de casa Ronilda Maria dos Santos parece um gigante, diante da tropa atônita, um dia depois de enterrar seu filho no dia em que completaria 16 anos. ?Atire aqui no meu peito, desgraçado, eu quero morrer também?, continua a brava mãe. No domingo de Páscoa, o adolescente Cícero Alves da Silva Júnior foi atropelado por uma picape Ford Ranger que invadiu o acostamento da BR-424, na favela conhecida como Rua da Palha. O veículo arrastou duas motos, três pessoas e destruiu as paredes de dois casebres. Dona Ronilda abre os braços, contrai os dedos, pede para morrer e avança mais. Um homem tenta segurá-la pelos braços. ?Me solte, me solte, tanto faz eu morrer agora ou amanhã, não tem problema se eu morro não, eu quero ir para junto do meu filho, mas esses pestes não atiram em mim?. A comoção tomou conta dos manifestantes e policiais. Houve um rápido momento de trégua. Ronilda mora na Massagueira e foi até o local da morte do filho, pela primeira vez, ontem, ao saber do protesto. Tinha caminhado quase dois quilômetros a pé por causa da pista interditada. Ao notar que não seria morta, fez uma última tentativa e estendeu as duas mãos com os punhos cruzados para o pelotão. ?Então me algeme, eu que sou a bandida aqui, já que não prenderam o homem que matou meu filho, agora me prenda?. Exausta, Ronilda desfaleceu e só não desabou no chão porque foi agarrada pelos braços.