Cidades
Mar� alta deixa rastro de destrui��o
De joelhos, com o balde na mão, Adauto Caiano passou a manhã inteira tirando água e areia do pequeno barco jogado na enseada de Pajuçara. ?Aqui é o meu sustento. Tenho 64 anos e nunca vi uma ressaca dessa. Eu ouvia os mais antigos dizerem que, quando os homens da terra querem saber mais do que Deus, Ele muda o tempo?. Só uma explicação assim para o velho homem do mar entender por que a maré mais violenta dos últimos anos veio na calmaria setembrina, superando as temidas ressacas dos meses de julho e de agosto. Quando a maré de 2,4 metros vazou para zero, expôs o cenário de destruição na praia próxima ao Porto, em Jaraguá. Nove embarcações afundaram: cinco pesqueiros, um catamarã que fazia passeio para a piscina natural, um veleiro de luxo, um caíque (usado para baldear os marujos até os barcos maiores) e o barquinho que Adauto Caiano usa para pescar ?de caceia? com a rede em águas baixas. Desde o último sábado, a ressaca devolve o lixo enfiado goela abaixo pelo Riacho Salgadinho. Aos goles da inconsciência ambiental sucedem-se vômitos titânicos da Mãe Natureza que transformam a paisagem de cartão-postal em desolação. Um banquete para os urubus. Na Pajuçara, dez jangadas foram arrastadas e o estrago foi grande até para barracas como o Lopana, que precisou realizar um mutirão com mais de dez funcionários para retirar a salgada lama e areia lançadas pelas ondas. ?O homem está mexendo demais com a natureza, está com muitos anos que a gente não vê uma maré dessa aqui na Pajuçara. Setembro nunca teve nada assim, mas quem decide tudo é Deus?, ensina o pescador Jorge Inácio.