Cidades
COMO CONVIVER COM ESSA DOR E COM ELE SOLTO?
Quando o fantasma da impunidade assombra o luto, o choro é mais amargo. Lágrimas estranhas e sentimentos nocivos tumultuam o direito de sofrer em paz. ?Nós precisamos encerrar esse ciclo de dor. A gente tem que elaborar o luto e viver apenas com as lembranças boas, mas não consegue. A Justiça precisa ser feita?, implora Valéria Hora, uma mãe de alma partida pelo tiro disparado numa festa junina. A bala entrou na cabeça do filho, Davi Hora, no dia 23 de junho de 2005, véspera de São João, e nunca saiu da cabeça da mãe. Quase uma década após o crime, o réu que apertou o gatilho foi inocentado e a família da vítima é que pena para solicitar a anulação do julgamento. ?No nosso caso, quando a Justiça tarda, ela falha. O tempo de espera pela realização do júri popular já gerou uma sensação de impunidade muito ruim, mas a absolvição nos chocou muito mais porque ele, o Rodolfo Amaral, era réu confesso, a testemunha que estava dentro do carro com eles também viu, e ainda assim ele foi completamente absolvido?, lamenta. Questionada se esse revertério todo revolta, Valéria Hora diz que não se sente revoltada, mas indignada. ?Como conviver com essa dor e com ele solto? Como é que eu posso conviver se a pessoa foi arrastada de qualquer responsabilidade??, indaga a mãe. O júri aceitou a tese da defesa de que houve uma briga dentro do carro onde eles estavam, em São Miguel dos Campos, e a arma teria disparado por acidente.