Cidades
Sem cheiro, cor e nem gosto �gua muda a vida em serra
?Bom dia, professora, posso interromper a aula??. Severina Venâncio, a ?tia Sílvia?, tira a ponta do giz do quadro, olha para trás, sorri e diz que sim, claro, não tem problema. O ruído das conversinhas da classe virou silêncio absoluto, e dezenas de olhos cheios de curiosidade miram como flechas aquele visitante inesperado no meio das contas de matemática. Tenho a atenção de todos e pergunto com a voz muito alta: ?Vocês gostam da água daqui? Quem quer um copo d?ááguaaaaaa??. Pronto, o tom jocoso era tudo o que eles queriam para se soltar. A balançada de cabeça afirmativa após a primeira pergunta, logo deu lugar a um sonoro e explosivo ?eeeeeeeuu?. A alegria das crianças de 9 a 10 anos de idade da escola da Serra dos Mamões, no município de Cajueiro, logo se espalhou pela sala e por todo pátio, trazendo os alunos das turmas vizinhas para a ?farra da água? produzida pela nossa reportagem. Estava tudo combinado com a merendeira Maria das Dores e a zeladora Lucélia Pimentel. Cada uma com uma bandeja, enchiam os canecos coloridos na torneira recém-instalada em frente à copa. Da encanação de 200 metros, vem a água cristalina da nascente, sem cheiro, sem cor e sem gosto. Há menos de um mês, a tia Sílvia não tinha coragem de oferecer um simples copo de água para um aluno. ?A nossa água era muito amarela, tinha um gosto ruim, a gente tinha até nojo, dava repulsa, eu não gostava de ver os meninos tomando dela, dizia para eles trazerem uma garrafinha de casa, com água da cacimba?. Na última terça-feira, ela tinha a felicidade estampada no rosto ao ver o gut-gut dos alunos e não escondia o orgulho com o avanço. ?Esse projeto traz vida?. Motivada com a recuperação e o aproveitamento da água de três nascentes, a professora agora faz a sua parte. ?Eu falo para eles que a gente precisa cuidar da água, não poluir os rios, quando cortam as árvores, as nascentes secam?, explica. Se a água antes estava ruim, é porque o homem maltratou a natureza.