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Cidades

Catadores de lixo herdam terreno

No princípio era o caos. Chorume, fumaça, putrefação e morte: por contaminação, doenças respiratórias, trabalho exaustivo, queda de barreiras, atropelamentos, câncer de pele, alcoolismo, drogas, assassinatos e tantos outros motivos. Em Gênesis, o homem ve

Por | Edição do dia 13/09/2015 - Matéria atualizada em 13/09/2015 às 00h00

No princípio era o caos. Chorume, fumaça, putrefação e morte: por contaminação, doenças respiratórias, trabalho exaustivo, queda de barreiras, atropelamentos, câncer de pele, alcoolismo, drogas, assassinatos e tantos outros motivos. Em Gênesis, o homem veio do barro. No Alto de Jacarecica, ele veio do lixo. De todas as toneladas descartadas diariamente por Maceió nasceu a comunidade da Vila Emater 2, a antiga favela do Lixão. Para gregos e troianos, era o caos. Para cristãos, “no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”, proclama o Evangelho segundo João. Da pobreza absoluta veio a bem-aventurança. O lixão foi desativado e o povo sobrevivente do êxodo rural herdou a sua terra prometida. Uma área de 51.410 metros quadrados na região que mais se valoriza da capital alagoana, com vista exuberante do mar, vizinho ao novo shopping center e no início do principal vetor de expansão imobiliária do cobiçado Litoral Norte, há um lapso de tempo da duplicação da rodovia AL-101. Há menos de um mês, os catadores de lixo receberam a notícia do desmembramento oficial do terreno em nome da Associação dos Moradores da Vila Emater 2. Tudo preto no branco, de papel passado, com firma reconhecida em cartório, no 1º Registro de Imóveis e Hipotecas. Quando chegaram lá, tudo era deserto nas cercanias do lixão. O belo azul-esverdeado do mar era encoberto pelo céu preto de urubus em meio à fumaça da combustão espontânea do lixo. Fugindo da escravidão da fome no interior do Estado, o povo chegou à encosta do tabuleiro costeiro. Para alguns, a opção era comer o pão que o diabo amassou. Para outros, o lixo é celebrado como um maná, de onde vem o pão de cada dia, o leite das crianças, a fonte de sustento. Durante mais de 30 anos, eles sobreviveram do que catavam no lixo. No início, com os restos de comida para vencer o oco da fome na boca do estômago; depois, com a venda de material reciclável. Foi muita história. A favela incendiou duas vezes, todo mundo perdeu um pouco do que tinha, houve mortes, vários queimados e os novos barracos (de papelão e plástico) foram sendo montados cada vez mais perto do lixão.

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