Cidades
EL NI�O VOLTA A TRAZER SOFRIMENTO A SERTANEJOS
O clássico Súplica Cearense, imortalizado na voz de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, descreve o drama do sertanejo ao pedir pro ?sol inclemente se arretirar?, dando passagem à chuva que tanto precisa para manter a lavoura e o gado. A canção, considerada pela crítica uma das músicas mais pungentes em solidariedade ao nordestino que sofre com a seca, foi escrita nos idos de 1960, mas continua tão atual quanto à época e certamente será ainda mais lembrada nos próximos meses, quando a meteorologia indica que o El Niño atingirá com força total o semiárido do Nordeste brasileiro, numa intensidade maior do que em 1997 e 1998, período em que foi registrado o mais forte fenômeno já identificado até o momento. A ?tragédia? anunciada agrava a situação de um povo que convive com a seca desde que o Brasil ?entrou para o mapa do mundo? como País, porém, com a força do El Niño, o sertanejo tende a reviver o sofrimento enfrentado nos anos 1990, quando a região tornou-se um torrão, os rios e riachos secaram, a lavoura foi dizimada pela falta de chuva, o rebanho morreu de fome e sede e muitas famílias foram obrigadas a deixar a terra para trás em busca de sobrevivência, enquanto outras eram impulsionadas a saquear mercearias e supermercados para conseguir comida, num cenário de guerra. Cinco milhões de pessoas no semiárido nordestino foram atingidas. Nada disso está longe de acontecer, caso medidas de gestão não sejam adotadas pelos governantes. Não se trata de previsões, mas de uma realidade confirmada pelos institutos mundiais de meteorologia ? entre eles a Agência Espacial Norte-Americana (Nasa) ?, segundo os quais, o El Niño já se estabeleceu e seus efeitos já são sentidos tanto no semiárido e região central, quanto no Sul do País, onde ocorrem chuvas fortes e tempestades de granizo.