Cidades
Perdeu o que n�o lhe pertencia
O facão e a foice sempre foram a extensão dos braços. A enxada, das pernas. Com 64 anos de sobrevivência, Manoel Odon da Silva arrancou a esperança de um pedaço de chão. Pelejou a vida inteira, de sol a sol, da infância no fumo a décadas de cana, fugiu da escravidão para a escória, na favela do lixão de Maceió. Êxodo infeliz para um homem da roça. No poente de sua jornada, enxergou a chance de voltar para o campo e não contou conversa. Vendeu a burra, a carroça, pegou empréstimo e comprou um pedaço de terra para chamar de seu, sem patrão ou meieiro. Mal sabia Manoel que entrava numa barca furada. ?Paguei R$ 3 mil por dois lotes de uns cinquenta metros por oitenta?, diz hoje o agricultor, com o olhar opaco de quem engole seco a pior das agruras. Dez meses atrás, tinha brilho nos olhos e suor na testa para preparar a roça. Arrancou baquiara do capoeirão, cavou poço, abriu leiras, plantou feijão, milho, macaxeira, coentro, abóbora, melancia, coqueiros e bananeiras. Manoel Odon passou os melhores meses da sua vida no acampamento Nova Esperança, área ocupada por mais de 200 famílias, próximo à BR-101, no município de Messias. O lote, segundo ele, comprado ao Movimento Familiar Filhos da Terra (MFFT) tinha produção para dar e vender. Alimentava toda a família, com cinco filhos e cinco netos, e lucrava com o excedente. Mas tudo mudou depois da picada de um mosquito. ?Peguei a Zika e voltei para Maceió?. Combalido em dores e febre terçã, teve de passar 18 dias, sob os cuidados da esposa e das filhas, na capital, entre julho e agosto. Quando voltou ao lote da suposta reforma agrária, perdeu o chão. Da Nova Esperança do acampamento, não possuía mais nada. ?Fui despejado, arrombaram a porta do meu barraco e roubaram tudo, aí eu procurei a população para saber quem tinha feito aquilo; o vizinho disse que foi o próprio movimento, a terra já era de outro. Eu tinha o maior respeito, toda consideração por esse movimento Filhos da Terra, mas eles fizeram uma malvadeza dessa comigo, ligeiramente?, lamenta o agricultor sem-terra. Na hora do susto, Manoel procurou a direção do MFFT. Tinha pago o valor dos lotes em dinheiro. ?Foi ao vivo, lá não tem negócio de fiado não, é só à vista?. Cada compra por R$ 1.500. Teve de fazer empréstimo no Bradesco para pagar em 24 prestações de R$ 188. Até janeiro de 2017, o dinheiro será retirado mensalmente da sua aposentadoria. ?Fiquei com o coração doido, com os bofes tudo cheio?, diz Odon ao lembrar do momento fatídico em que o sonho virou pesadelo.