Cidades
Seca, fome e assaltos amea�am sertanejos
ROBERTO VILANOVA Traipu e Canapi - A seca que flagela, a fome que virou endemia e a ausência do poder público formam a equação da miséria no sertão de Alagoas ? e como conseqüência, a violência que era urbana é o mais novo componente agregado a antes pacata vida rural no Estado. Somente no mês passado assaltaram dez fazendas, cinco ônibus e vinte motocicletas foram roubadas em ações ousadas nas estradas vicinais sertanejas, mas até ontem ninguém foi preso e os inquéritos serão enviados à Justiça com a conclusão insólita: autor desconhecido. Até mesmo quem conseguiu se livrar dos assaltantes, como o fazendeiro Ildo Sergipano, ainda não se refez do susto e denunciou revoltado: ?A lei desarmou o homem de bem e armou o bandido?. Dono da Fazenda Santa Maria, Ildo é o magarefe mais conhecido nos povoados de Capivara e Piranhas, pertencentes a Traipu, a 178 quilômetros de Maceió. Vende e mata bois para a feira dos dois povoados e, na semana passada, escapou por sorte de ser assaltado - ele foi com a mulher e os dois filhos pequenos trocar os cheques que recebeu dos clientes na agência do Banco do Brasil em Girau do Ponciano, quando retornava para casa foi seguido pelos ocupantes de uma caminhonete D-20, com vidro fumê, que trafegava desde cedo pela cidade sem que se pudesse identificar o motorista. ?Eram três horas da tarde. Estava quente e eu parei na casa de um amigo para dar água a esta menina?- aponta a filha de três anos de idade. Só assim ele percebeu o perigo, porque a caminhonete foi obrigada a ultrapassá-lo. A revolta A fazenda de Ildo fica no povoado Capivara, à margem da estrada municipal que liga Traipu a Batalha; a vida simples do campo disfarça à primeira vista a invejável condição financeira ? sobrevive tranqüilamente com o que produz ? mas para os bandidos que atuam na região ele não pode passar despercebido. Construída à margem da pista, a sede da fazenda é chamariz para os assaltantes; até hoje ele conseguiu rechaçar as tentativas dos bandidos de invadir sua casa, mas não sabe até quando poderá resistir e defender a família. ?Não durmo mais sossegado e a qualquer barulho me levanto assustado. Já sonhei com um bando dentro de casa, penso na minha mulher e nos meus dois filhos?, desabafou. ?O que mais me revolta é saber que a lei desarmou o homem de bem e armou o bandido. Só quem pode usar arma, hoje, é a polícia e o bandido; o homem de bem não pode e fica sujeito a ser assaltado, a ter a mulher estuprada e os filhos mortos, como já ocorreu por aqui?, desabafou, referindo-se à Lei Renan Calheiros, que considera o porte de arma crime inafiançável e dificultou o processo de legalização de armas para o cidadão comum. ?Eu pergunto: o bandido registra arma? O que eu tenho é fruto do meu trabalho; tenho as mãos assim, calejadas, faz até vergonha apertar a mão de alguém. Mas perdi o sossego. Quem está sossegado é o bandido, que nunca é preso e está sempre armado?. Os assaltos Ildo conseguiu se livrar dos assaltantes porque parou na casa de um amigo para dar água à filha e achou estranho a caminhonete passar em marcha lenta, como se o motorista, escondido pelo vidro fumê, tivesse sido surpreendido pela súbita parada. Para disfarçar, o motorista seguiu viagem e foi esperar a passagem de Ildo logo após a primeira curva, na estrada municipal que liga Girau do Ponciano a Traipu; o fazendeiro, já desconfiado, pressentiu a manobra e deu marcha a ré; não seguiu pelo atalho e para chegar em casa foi obrigado a fazer o percurso mais longo, ou seja, pela rodovia estadual que passa por Arapiraca. A mesma sorte não teve o dono de uma farmácia em Canapi, que perdeu a motocicleta na porta do estabelecimento, no centro da cidade e em plena luz do dia ? foi entre 13 e 14 horas; a ação dos assaltantes foi tão ousada que ele não acreditou quando dois homens o interceptaram e o mandaram descer do veículo. Somente depois de sentir o cano da pistola na cabeça é que admitiu não se tratar de brincadeira e entregou a motocicleta; o assalto foi engrossar a estatística dos crimes insolúveis, embora todos no município conheçam ou pelo menos suspeitam que os assaltantes partem de Itaíba-PE, na divisa com Alagoas. ?A moto foi vista lá em Itaíba?, disse uma testemunha, preferindo o anonimato. Foguetes No posto da Polícia Rodoviária Federal no Carié, em Canapi, às margens da rodovia BR-423, a prova do crime ? e da ousadia dos assaltantes ? está à disposição da comunidade: um caminhão mercedes-benz usado para o transporte de carga roubada. O veículo foi apreendido graças à coragem da vítima ? um caminhoneiro pernambucano ? que se livrou do assalto manobrando o seu veículo, carregado com eletrodomésticos, contra o caminhão. Ele contou que vinha de São Paulo para Garanhuns e foi seguido por um Gol logo que atingiu a divisa de Alagoas com a Bahia (Paulo Afonso); antes da divisa com Pernambuco (Águas Belas), viu o Gol acelerar e, ato contínuo, o caminhão mercedes-benz, vazio, sair de uma estrada vicinal e trafegar pelo acostamento. O caminhoneiro, ao emparelhar-se, jogou seu veículo para o lado, obrigando o motorista do mercedes-benz a sair do acostamento e se precipitar numa ribanceira. Os quatro ocupantes do Gol resgataram o motorista do mercedes-benz e escaparam. Detalhe: a tentativa de assalto aconteceu a 500 metros do quartel de uma unidade da Polícia Militar sediada no município de Ouro Branco. Os patrulheiros federais desaconselham reações desse tipo, mas graças a ela puderam constatar que o caminhão mercedes-benz não é cabrito, ou seja, tem placa quente e não há registro de que tenha sido roubado. O veículo está no posto da PRF aguardando que o proprietário apareça para reclamá-lo, mas, até agora, não veio ninguém. Os assaltantes que infernizam a vida dos moradores e motoristas no sertão de Alagoas têm até código de comunicação de emergência. Eles avisam sobre a presença da polícia, quando há escoltas, por meio de foguetes. Por ser uma região de divisa entre três Estados ? Alagoas, Pernambuco e Bahia - a polícia, na maioria dos casos, fica tão perdida quanto as vítimas; no máximo, registram as ocorrências apenas para efeito de pagamento do seguro, pois até hoje ninguém foi preso. Estupros No povoado Barro Branco, em Canapi, os moradores perderam a conta dos assaltos a motoqueiros; no povoado Piranhas, em Traipu, um motoqueiro perdeu a motocicleta e foi resgatado depois apenas de cueca. Teve sorte, pois pior aconteceu com S., 26 anos, casada e estuprada por dois elementos que abordaram seu marido e lhe tomaram a motocicleta. ?Acho que eles tinham raiva do meu marido, porque bateram muito nele. Eu pedia pelo amor de Deus para não matar a gente, mas hoje eu preferia ter morrido do que passar a vergonha que passei?, relata ainda traumatizada. Também traumatizado, o fazendeiro Ildo Sergipano recorda o caso da menor, de 13 anos, estuprada e morta no ano passado. ?Uma inocente. Estudava no grupo que eu ajudei a construir, cedendo o terreno. Vivia na minha casa, almoçava na minha casa, brincava com meus filhos. Saiu daqui na sexta-feira feliz da vida, com a inocência de toda criança. No domingo, foi estuprada e morta por um bandido que, com certeza, quando for liberado, voltará a praticar o mesmo crime, porque teve todo o apoio e mordomia?, contou revoltado. Pior é que o pai e os tios da vítima foram humilhados e desarmados pela polícia. ?Não sei se eu suportaria uma situação dessas. É triste ver a lei protegendo bandido?, completou. Sem lei Ao longo da rodovia BR-423, que liga Garanhuns-PE a Paulo Afonso-BA, os relatos das testemunhas causam medo à platéia. Os ônibus das empresas São Geraldo e Itapemirim, mesmo andando em comboio, têm sido alvos dos assaltantes. No posto da Polícia Rodoviária Federal, no Carié, onde as vítimas procuram refúgio, há casos como o do caminhoneiro José Anselmo ? o nome é fictício, pois ele teme represálias por parte dos assaltantes ? que lembram as ações de quadrilheiros no antigo faroeste norte-americano. Ele foi assaltado em Jeremoabo, na Bahia, os ladrões tomaram seus documentos, inclusive a Carteira de Habilitação, pediram o telefone para contato e prometeram devolvê-la, junto com o caminhão, caso seguisse a instrução de só prestar queixa à polícia de Alagoas. Sem outra alternativa, o caminhoneiro obedeceu ? ele prestou queixa na Delegacia Regional de Delmiro Gouveia e dez dias depois, recebeu em casa ? ele mora em Garanhuns ? o telefonema avisando-o de que o caminhão estava em Arcoverde, estacionado em frente à antiga estação ferroviária. Anselmo recuperou o veículo, mas até hoje vive assustado, porque os assaltantes sabem o número do seu telefone e o endereço de sua casa em Garanhuns. Outro, como Antônio Marques, não teve a mesma sorte, perdeu o caminhão, a carga, levou uma coronhada na cabeça e foi deixado num matagal próximo ao povoado Capelinha, amarado a um pé de algaroba, apenas de cueca. Ainda hoje perambula pela região na esperança de obter informações sobre o caminhão que, para aumentar o azar, não estava segurado. ?Perdi metade da minha vida, porque levei vinte e cinco anos trabalhando para os outros para poder comprar meu próprio caminhão. É duro saber que tudo se acabou assim, de repente?, desabafou, quase em lágrimas. As quadrilhas Para Antônio, o pior é saber que os assaltantes não são desconhecidos ? todos, em Canapi indicam que Itaíba, município pernambucano, é a base dos criminosos. ?Muita gente que teve motocicletas e caminhões roubados viu ou soube que seus veículos estavam em Itaíba. Mas ninguém se atreve a ir buscar, porque sabe que o negócio lá não é fácil ?, diz Antônio. A mesma indignação tem o fazendeiro Ildo Sergipano, que não entende como um carro suspeito, com vidros fumê, pode circular dentro da cidade de Girau do Ponciano ? ou qualquer outra ? sem ser abordado. ?Com certeza os ocupantes, que ninguém sabe quantos eram, estavam armados. Eu não posso entender essa facilidade. A lei desarmou o homem de bem e armou o bandido. Eu não posso possuir um revólver; o bandido pode ter até um fuzil AR-15 se quiser e ninguém diz nada, ninguém faz nada. Não dá para entender essa lei?, repetiu revoltado com a facilidade para os que transgridem a lei. ?Nós vivemos aqui apenas sob a segurança de Deus?, desabafou.