Cidades
Demanda por reparos e consertos aumenta
Em tempos de crise, os impulsos de compra acabam sendo reprimidos pelos consumidores conscientes. De repente, o celular de última geração vai ter que esperar um pouco mais na vitrine; a roupa que havia saído do armário porque descosturou ganha novo espaço no cabide, após passar por um pequeno reparo. Com parte da renda corroída pela inflação e as projeções de desemprego aumentando, os brasileiros têm mudado seus hábitos de consumo, e hoje pensam duas vezes antes de descartar roupas, utensílios e eletrônicos. Em alguns lares, a nova regra é: quebrou, conserta-se; tá com cara de velho, faz um upgrade. Ao invés do descarte, o conserto. Assim, a mala, o cinto, o tênis, o ventilador do quarto, antes encostados como bens inservíveis, por causa de pequenos defeitos, acabam ocupando espaço nas lojas de consertos e reparos e ganhando vida extra nas mãos de seus donos. Essa mudança de comportamento, ainda que sutil, tem abalado o comércio, que se queixa da queda nas vendas e se vira como pode para atrair consumidores de produtos novos. Mas, por outro lado, quem trabalha no ramo de consertos e pequenas reformas não tem muito do que se queixar. Pelo contrário: tem gente comemorando a volta dos ?bons tempos?. Na pequena loja de consertos ? a Brother Calçados ? localizada na Rua Quintino Bocaiúva, na Pajuçara, onde se estabeleceu há dez anos para driblar o desemprego, o que falta, agora, a Francisco Nascimento, é espaço. Trabalho, ele tem de sobra. E criatividade também, para acomodar tantas peças que chegam todos os dias para consertar. As malas ganharam espaço na entrada; os calçados são identificados e pendurados em sacolas, no teto; os cintos, as bolsas femininas e outros artigos que chegam vão sendo organizados no que parece uma grande desorganização. Dentro da loja, um pequeno mezanino foi improvisado para acomodar as peças mais antigas, aquelas que os donos encomendam o conserto e somem, não retornando para pagar o serviço e buscar a peça. ?Às vezes cobramos 50% adiantado, para evitar esses esquecimentos que deixam prejuízo. Às vezes, acabamos tendo que dar destino à peça que não foi mais procurada, para desocupar o espaço?, diz Joelson Nascimento, que desde a adolescência trabalha com o pai na sapataria. Recentemente, a equipe, antes resumida aos dois, teve que ser reforçada e ganhou um funcionário. O que mais recebem para conserto? ?Tênis para costurar, malas para trocar a rodinha ou consertar o fecho e sapatos femininos?.