Cidades
DOENÇA DO SÉCULO É CADA VEZ MAIS COMUM
O olhar da servidora pública federal Joalita Queiroz já não tem o mesmo brilho de quando viu o mar de Maceió pela primeira vez, há cerca de um ano. Veio a passeio, mas se apaixonou pela cidade de mar azul degradê, de sol brilhante e praias lindas, de gente alegre e hospitaleira e de uma calma aparente que ela parecia não mais encontrar na capital federal. Não teve dúvidas. A capital alagoana era o lugar ideal para morar e ser feliz. Retornou a Brasília, pediu transferência no emprego, e em pouco tempo estava de mudança, com a filha e o neto, com quem morava. Rumo à felicidade. Mas o encantamento durou pouco. Embora de espírito alegre e extrovertido, com grande facilidade de fazer amizades, Joalita descobriu aos poucos que, por aqui, as relações de trabalho, por melhores que sejam, geralmente fecham expediente às sextas, sem extensão para momentos de lazer. ?Aqui, os fins de semana são reservados ao convívio familiar. As pessoas se fecham em seus círculos sanguíneos. É diferente de Brasília, onde as pessoas se visitam nos fins de semana, abrem suas casas, fazem festas. Senti falta dessa convivência e comecei a me sentir triste?, conta ela. A situação piorou meses depois. O neto brasiliense não se adaptou ao clima maceioense e teve que voltar com a mãe. Joselita ficou sozinha. A tristeza começou a se manifestar em lágrimas recorrentes, em indisposição de sair de casa, para trabalhar e até para comer. O diagnóstico veio numa consulta a um psiquiatra. Estava com depressão moderada. Joalitas, Marias, Pedros, Fernandas; ricos, pobres; graduados ou não; cresce a cada dia, ao nosso redor, no trabalho, na família, no círculo de amizade, nos consultórios de psicologia e psiquiatria, o número de pessoas com sinais de depressão. Considerada a doença do século, ela não escolhe idade, sexo, classe social, embora dados estatísticos da Organização Mundial de Saúde (OMS) indiquem que as mulheres estão mais vulneráveis e o risco aumenta com a idade. De acordo com a OMS, há aumento na incidência da doença e as estimativas indicam que até 2030 ela será a enfermidade mais comum do mundo. QUEM É ELA Mas, o que é e como se manifesta essa tal de depressão? ?É um termo do vocabulário comum que remete à ideia de melancolia e tristeza?, diz a médica Maria Carolina Marques, residente em Psiquiatria no Hospital Escola Portugal Ramalho e membro efetivo do Toro ? Escola de Psicanálise. Para a psiquiatria, define, depressão é um transtorno que consiste em humor deprimido, fatigabilidade e falta de prazer nas atividades que antes conferiam prazer ao paciente, sendo necessária uma avaliação criteriosa para realizar o diagnóstico. Segundo ela, nos consultórios, a percepção do crescimento do quadro clínico vem aumentando, sendo hoje um dos principais motivos de procura a um psiquiatra. ?A depressão é uma condição que deve ser pensada de diversas dimensões, sendo elas biológica, psicodinâmica e cultural?. A médica costuma dizer que a depressão é uma vivência subjetiva própria e única para cada paciente. ?Muitas vezes apresentamos sintomas de depressão em diversos momentos da vida, o que não significa que estejamos deprimidos?, observa.