Cidades
NA RETA FINAL PARA O ENEM, A ORDEM � DESCONTRAIR
Na escola, nos cursinhos, no ambiente familiar da maioria dos jovens que se preparam para Enem, o estresse está no ar. Mas, a duas semanas do exame que dá acesso às universidades públicas, a ordem é descontrair. Para quem não estudou, não faz muita diferença, mas, certamente, não adianta virar noites em busca do tempo perdido às vésperas das provas. Para quem passou o ano inteiro ?queimando as pestanas?, embora as aulas preparatórias e os provões estejam na agenda dos próximos dias, o momento é de rever conteúdos, tirar dúvidas e recorrer à ?terapia? da calma. Para isso, eles contam com verdadeiros artistas que se desdobram o ano inteiro, em sala de aula, para espantar a síndrome do ?bicho de 7 cabeças? que ronda o Enem. ?É hora de relaxar; tornar as aulas mais dinâmicas. Os alunos estão ansiosos, extremamente tensos com a cobrança da família, da escola, e de si próprios. Mas não tem como descuidar dos temas que são notícia no País inteiro. Há uma carga emocional muito grande nessa reta final?, avalia o professor de Redação Marcílio Costa. Durante o ano, ele trabalha com seminários, muita notícia sobre os temas atuais, oficinas de redação, tudo em nome da preparação. ?O aluno tem que ler muito e estar bem informado para enriquecer qualquer que seja o tema a redação, que geralmente é um tema da atualidade: gênero, bullying, imigração, corrupção, reforma política, Estatuto da Criança, violência, maus- -tratos aos animais, é preciso estar bem informado para desenvolver a técnica da redação?, diz o professor. Na sua avaliação, o ambiente descontraído, a essa altura, é tudo o que o aluno precisa depois de ter estudado o ano inteiro. E é preciso que os pais também entendam isso. Alguns professores são mestres nessa arte de descontrair, e executam isso o ano inteiro. Músicas, paródias, historinhas com personagens engraçados se transformam em recursos para ajudar os estudantes a assimilar conteúdos de forma leve e interessante, nas salas dos cursinhos ou em aulas particulares de disciplinas isoladas, desvendando os mistérios do português, da matemática e da redação. Com essas estratégias, os professores João Paulo (Titio JP) e Daniel Lima (Figurinha) se tornaram referência no ensino diferenciado de português e matemática entre os alunos que se preparam para os desafios dos concursos e exames de ascensão ao ensino de nível superior. Foi com um professor nada ortodoxo, ainda na adolescência, quando tentava vestibular para Direito, na década de 1990, que Daniel ?Figurinha? perdeu o medo da matemática. ?Detestava a disciplina e só passava com aulas particulares?, revela ele, hoje com 27 anos de sala e aula. O ?ódio? só durou até o dia em que um professor apareceu com um violão, que passou a usar para relaxar a turma. De repente, Daniel começou a esperar com entusiasmo pelas aulas de matemática; começou a estudar a disciplina com mais afinco. Passou no vestibular para Direito; enveredou pelos caminhos da Biologia, mas acabou se formando em quê? Matemática. Virou professor, e, como tal, começou a lidar com alunos que tinham as mesmas dificuldades que ele enfrentara, quando estudante. ?Um dia eu pensei: Por que não trazer esse método para as minhas aulas??. Deu certo, embora nunca tenha conseguido aprender a tocar violão. Ao invés do silêncio, ele passou a adotar o ?barulho? em sala de aula, com vídeos que ele mesmo produz, ritmos e sons tocados com os pés, e a certeza de que, quando associa música aos conteúdos, os alunos aprendem com mais facilidade. Até hoje, passados 27 anos desde que começou a ensinar, a irreverência continua sendo a sua marca em sala de aula. E a duas semanas do Enem, quando os alunos estão emocionalmente abalados, o jeito é acelerar o ritmo, mas sem perder o foco dos conteúdos. Se ele é unanimidade? Claro que não. ?Tem gente que prefere aula tradicional. E no começo, havia certa desconfiança. Mas os resultados venceram a resistência. Esse é meu estilo. Quem me procura é porque confia nele?, avalia o professor. No mesmo ritmo, o professor João Paulo Prazeres, o Titio JP, transformou as aulas de português num enorme prazer para os alunos, nos cursinhos e colégios onde ensina. E a agenda está sempre cheia. A experiência é reconhecida no mercado. Nesta reta final, nada de sobrecarregar os alunos. É hora de cortar arestas pendentes e lapidar o conteúdo que foi trabalhado durante o ano. ?Sabemos que o Enem é um peso enorme para os alunos. Este momento é, de fato, para o aluno se tranquilizar para a hora da prova. Ele já se sente um tanto saturado devido a todos os conteúdos programático trabalhados durante o ano letivo?, diz o professor. Ele disse que, logo no início da carreira profissional, notou que o ensino da língua portuguesa era muito desinteressante para os alunos, especialmente os mais jovens, e tratou de buscar formas de mudar essa realidade. ?Para cada assunto trabalhado, procuro buscar um recurso de memória. Através de música, de metáforas ou paródias, fazendo a transposição de exemplos da gramática para a realidade deles, tudo abordado com uma linguagem extremamente dinâmica. Minha preocupação sempre foi tornar o aprendizado agradável e interessante? afirma ele. A voz rouca denuncia. Na sala de aula, quem faz mais barulho é o professor. A ordem é não deixar o aluno parado. Interação é o segredo para mantê- -lo focado e obter resultado proveitoso no Enem. Já sentiu alguma resistência? Sim, em algumas escolas mais ortodoxas, o fato de ter um professor que ensina de maneira mais descontraída gera um pouco de receio por parte do corpo administrativo. Mas isso passa. ?Lá na frente, esse receio é transformado em confiança, porque os resultados vêm, porque o aluno, normalmente habituado a um ensino de língua portuguesa muito tradicional, quando tem um professor que fala a linguagem dele, acaba se encantando e despertando o interesse e o prazer no estudo da matéria?, observa.