Cidades
FAM�LIAS VEEM SUSTENTO AMEA�ADO
Noel mostra as mãos calejadas e conta parte da história de vida sem receios. Uma trajetória digna e humilde. A partir da lagoa, conseguiu sustentar a família até hoje. Entretanto, quando observa locais tidos como férteis, a exemplo da localidade conhecida como boca do rio (o mais fundo da lagoa na região de Fernão Velho), vê que a esperança de dias melhores está cada vez mais distante. A reportagem foi convidada pelo pescador para ir a esta área. Entre as remadas até lá, o percurso é marcado pelo odor de esgoto e as águas mudam de coloração pelo volume de dejetos lançado. O remo não consegue afundar mais do que um metro, revelando que o nível das águas é cada vez mais baixo. No dia em que o ?passeio? foi feito, a maré estava alta. Mesmo assim, a profundidade não passou de um metro e meio. Na boca do rio, o cenário é frustrante. A vegetação seca avança, mesmo sendo regada dia e noite pelas águas sujas da lagoa. Uma água-viva foi avistada boiando, mas nem ela tinha mais vida. Peixe nenhum saltou. Apesar da realidade constatada, a vista é bela ao horizonte. É evidente o crescente avanço, desordenado, do setor imobiliário. Casas são construídas às margens da Mundaú sem estrutura de saneamento, o que reforça a degradação do ecossistema. No alto do morro, recheado de Mata Atlântica, clarões foram abertos. Condomínios de luxo tiram o brilho da vegetação anteriormente intocável. Noel enxerga o cenário e confirma que o horizonte bonito lhe traz mais esperança. As evidências atuais não garantem nada, mas ele revela ter um grande desejo no coração: gostaria de ver os filhos trabalhando como pescadores, mas a realidade degradante já o faz pensar que o anseio não se tornará realidade. Os garotos estão sendo incentivados a estudar, embora tenham aprendido o ofício com pai. Sabem manusear o remo, tirar o barco e colocar o motor para funcionar. Seguir a profissão? Não querem. O pescador diz que muitos de seus amigos da juventude saíram de Fernão Velho em busca de ?coisas melhores? para fazer. Tiveram a convicção de que não conseguiriam sobreviver unicamente da lagoa. Os que permaneceram na área sofrem com as mesmas dificuldades e buscam no sururu, única fonte quase inesgotável da Mundaú, a alternativa para seguir em frente. Ele próprio já pensou em partir para outra área, mas alega ter receio de não se adaptar.