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ARREPENDIDOS DO ‘PASSADO OBSCURO’

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Infância e adolescência interrompidas pelo mundo do crime, vidas que tomaram rumos diferentes dos sonhados pelos pais. As histórias dos adolescentes em conflito com a lei estão guardadas atrás de mais de cinco metros dos muros do Complexo Socioeducativo de Maceió. Muitos dos jovens não sabem explicar qual o momento em que tudo começou, mas o arrependimento pelos delitos e o desejo de recuperar a vida estão presentes em várias narrativas. Alguns já estão perto de se tornar um adulto, mas não querem deixar a unidade, pois não têm perspectiva de futuro ? um lugar para ir, uma família para voltar. O medo de cometer outros delitos também impede o sonho de atravessar os portões do complexo. A Gazeta de Alagoas ouviu alguns adolescentes e conheceu histórias de dor, solidão e saudade. Há também o desejo de ser perdoado pelos familiares e amigos. Em um universo de, aproximadamente, 300 adolescentes que cumprem medidas socioeducativas no complexo, cerca de 15% demonstram arrependimento pelos crimes cometidos. Em uma pesquisa feita com os jovens, a Secretaria de Estado de Prevenção à Violência (Seprev) detectou que, entre os delitos cometidos, os mais comuns foram roubo, homicídio e tráfico de drogas. Ao falarem sobre os motivos que os levaram ao mundo do crime, muitos afirmam que querem mudar de vida, construir uma família e, após deixar a Unidade de Inclusão Social (UIS), esquecer todo o ?passado obscuro?. O jovem S., de 17 anos, esconde de seus colegas o crime que cometeu. Ele tem medo de sofrer algum tipo de retaliação. Segundo ele, as ?leis? de dentro do sistema socioeducativo não permitem determinados delitos e, quem é preso por praticar algum desses, pode sofrer o ?troco?. O adolescente S. é acusado de abusar sexualmente uma garota, que à época tinha 16 anos, no município de Satuba, na Região Metropolitana de Maceió. Após 10 meses internado, ele não consegue explicar o motivo do ato. Mas afirma que, se tivesse a chance de voltar no tempo, jamais teria cometido o crime. ?Não sei por que fiz aquilo. Lembro apenas que estava com ela e que quando comecei a fazer, de repente, parei e sai correndo. Nunca me envolvi com drogas ou qualquer coisa assim. Pouco tempo depois, a polícia foi até minha casa e me levou. Se eu pudesse voltar atrás, não teria feito nada daquilo?, lamentou. PROJETOS Ao pensar no futuro, ele planeja deixar Alagoas assim que completar um ano de detenção na UIS ? tempo máximo permitido para que jovens, que não tiveram o caso revisado, fiquem na unidade ?, buscar uma nova vida ou realizar um de seus sonhos: ser motorista de ônibus, profissão do pai. ?Não quero mais essa vida. Não quero mais viver nessa solidão. Quando sair daqui, quero ir para um lugar bem longe. Tenho um tio que mora em Itajaí, em São Paulo. Talvez eu vá pra lá, ter uma nova vida. Longe de todas as lembranças?, contou. Ao ser questionado sobre o desejo de retomar os estudos e seguir uma profissão, o adolescente S. foi enfático: ?Quero ser motorista de ônibus igual ao meu pai?. Com os olhos tristes, ele confidenciou que não recebe visitas da família, a não ser em determinadas ocasiões. Mas isso foi um pedido do próprio adolescente. Ele guarda mágoas do momento em que foi levado pelos policiais. ?Não quero que eles venham. Sinto muitas saudades, amo muito todos eles, mas quando eu mais precisei, eles não me apoiaram. Após tudo o que passei sozinho, eu não quero eles aqui dentro?, pondera o adolescente.

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