Cidades
A OPORTUNIDADE DE SE DESPEDIR
?Fazer cuidados paliativos não é cuidar da morte, é cuidar da vida até que ela se vá. Ninguém valoriza mais a vida do que quem faz cuidados paliativos. E cuido da vida com uma urgência muito grande, porque a gente sabe que quem tem doença avançada tem pressa, então a gente busca a vida em sua plenitude. Cuido de quem está vivo e de forma muito plena, e amplio esse meu olhar à família?. A fala, cheia de convicção, é da médica alagoana Ronny Roselly Domingos. Geriatra, ela participou, em 2007, do primeiro curso internacional sobre cuidados paliativos realizado no Brasil, pela Universidade de Oxford. Os dez últimos anos foram de entrega, aprendizagem e compaixão. ?A gente desfoca da doença e foca no paciente, que é uma pessoa com três esferas: física, mental e espiritual. É uma assistência integrada, ativa e em equipe?, afirma a médica, que é coordenadora do serviço de cuidados paliativos da Assistência Domiciliar da Unimed Maceió. Foi Ronny quem acompanhou Ana Paula e a família dela, que, com uma equipe multidisciplinar, com enfermeiro, psicólogo e fisioterapeuta, esteve presente nos últimos momentos de vida da enfermeira, que primeiro venceu um câncer de mama, mas em seguida descobriu outro ainda mais agressivo, no pulmão. ?Minha filha passou os últimos seis meses em casa, no home care. Recebeu carinho, atenção e conforto da família, dos amigos e também da equipe que cuidou dela. Foi um acompanhamento mais humano, pudemos nos despedir. Fizemos tudo que era possível para aliviar sua dor, para ajudá-la a respirar, que ficou mais difícil com o passar das semanas?, conta Vera Lúcia, mãe de Ana Paula. Dias antes de morrer, Ana Paula, que era católica, acordou contando um sonho: ?Santa Teresinha tinha vindo me buscar, fomos para um lugar com lindas flores e borboletas?. A história marcou Vera e as duas filhas de Ana Paula, que tiveram na fé um alicerce. Após a sua morte, em um passeio pelo cânion do Rio São Francisco, que tinha sido ideia de Ana Paula, uma borboleta amarela pousou perto da família. ?Minhas netas olharam e disseram: ?mainha está aqui, está presente??, relembra Vera, emocionada.