Cidades
Pedagogos defendem brincar livre
Em meio a um mercado que já classifica a infância como público-alvo de consumo, quem confronta os apelos publicitários é a própria realidade alagoana ?? e 66% de sua população de até 14 anos em situação de pobreza, segundo dados recentes amplamente divulgados pelo Instituto Abrinq. O resultado de informações tão contrapostas é uma mistura de considerações que, em um dia como este ? tão entregue às crianças ?, ensejam a discussão: o território do brincar é assunto para gente adulta também? A publicidade tem respondido que brinquedo infantil é coisa de gente grande de maneira consolidada. Ainda em 2003, o instituto TNS apontou que as crianças influenciam em 80% as decisões de compra no ambiente familiar. Quase quinze anos depois, com youtubers mirins, unboxings e outras estratégias de propaganda, o cenário permanece em crescimento. As repercussões são visualizadas por pedagogos não só a partir da lógica do consumo em si, como nas relações entre as crianças e seus cuidadores, estejam no espaço doméstico ou escolar. ?O brincar vem mudando muito, mas principalmente tem surgido uma percepção de que as crianças precisam estar sempre orientadas para brincar. Um grande mercado se abriu, com pessoas mostrando aos pais como as crianças devem brincar ou como os pais devem brincar com as crianças. É como se as crianças tivessem perdido a coisa do brincar naturalmente. A brincadeira por brincadeira. A brincadeira que não precisa de uma direção, e não precisa de um brinquedo para dizer o que ele deve fazer?, relata a pedagoga Isabel Ferreira, de uma escola particular que segue a vertente Wardolf . Segundo a educadora, a configuração dos brinquedos oferecidos também tem reduzido as possibilidades de uso por parte de crianças. ?A gente chama de brinquedos que brincam sozinhos. Brinquedos que precisam ser ligados, precisam fazer as coisas, precisam ter luz, precisam piscar. Dentro da nossa pedagogia, a gente busca com que a criança use a imaginação, com areia, barro, madeira, água, espaço que possa correr e subir em árvores?, exemplifica. ?O triste é quando a gente tira essa possibilidade da criança ao oferecer brinquedos prontos em que ela não precisa imaginar?, explica.