Cidades
Gordas, sim, com muito prazer!
Alguns usam palavras aparentemente elogiosas, com expressões como ?seu rosto é tão lindo. Se emagrecesse um pouco...?. Outros, menos contidos, já disparam algo como ?sabe aquela piada do gordinho que...?. Embora seja pouco conhecido, o termo ?Gordofobia? tem um significado presente na pele e no corpo de mais da metade da população adulta no país e em Maceió. No entanto, um grupo de alagoanas tem buscado realizar atividades públicas e virtuais para levantar a autoestima e enfrentar o preconceito no Estado. Com quase 2900 seguidores, a página ?Gordinhas e Gordinhos de Alagoas? foi criada pela modelo e empresária Thaysa Vanessa com o objetivo de reunir pessoas acima do peso para se aceitarem com o peso em que se encontram. ?Vi muitas páginas de gordinhas e, na época, não me aceitava. Pensei em tentar ajudar outras pessoas também?, explica. Segundo a modelo, já é possível verificar mudanças importantes entre participantes. ?Antigamente tinha poucas pessoas, e o pessoal tinha vergonha de enviar fotos e de conversar. Hoje em dia, várias pessoas enviam depoimentos, contam sobre a família do namorado que não a aceita porque é gorda?, comenta. Além dos depoimentos e desabafos, os participantes compartilham fotos com roupas e cenários dos mais diversos, encarando as câmeras com a alegria de quem possui corpo e mente a serviço de suas próprias vidas, e não dos olhares julgadores. Para além das redes sociais virtuais, o grupo também realiza atividades públicas. ?Fazemos eventos na praia, onde ajudamos gordinhas a usar biquínis, maiôs. Muitas delas não tiram shorts com vergonha do que as pessoas vão dizer ou pensar?, menciona. Segundo a moderadora da página, na primeira vez em que o evento foi noticiado, comentários gordofóbicos chegaram a ser emitidos na internet. ?Alguns gordofóbicos pegaram fotos e começaram a fazer piadinha. Mas vamos nos reunindo e ficando cada vez mais fortes para tentar combater esse preconceito. Hoje tentamos não ligar para o que estão falando e seguir com a vida?, garante. A postura animadora não esconde o grande trabalho ? interno e externo ? que pessoas gordas precisam realizar para conquistar o devido respeito diante dos vários apelos que padronizam corpos, formas e aparências. Thaysa adequa palavras fortes para definir a gordofobia. ?Significa o ódio, repulsa ou nojo de pessoas gordas?. De acordo com a cantora e blogueira Camila Justino, toda essa repulsa nem sempre é percebida pelas próprias pessoas que praticam esse tipo de ofensa. ?As pessoas agem muito como se quisessem cuidar de você. Às vezes me param no ônibus, senhoras que olham para mim, do nada, e perguntam por que não faço uma redução de estômago. Outras pessoas são na maldade. Nem sentam ao meu lado no ônibus?, comenta. Ainda segundo Camila, esse preconceito começa a ser sofrido desde cedo. ?Dentro da família é muito mais comum. Dizem que você não vai arrumar namorado se não emagrecer. Não vai conseguir emprego, porque as pessoas não querem gordas. Na faculdade você vai ser a diferente. Tudo para pessoas gordas é difícil. Acham que somos preguiçosas, que não temos capacidade de fazer o que queremos, tanto profissionalmente como na vida pessoal. E não é verdade. Temos total capacidade de fazer o que qualquer pessoa faz?, rebate. Se o preconceito pelo peso é grande, o gênero também interfere na ofensa sofrida. ?Muitas coisas advêm não só por ser gorda, como também por ser mulher. Então você tem que aceitar as coisas mais fáceis. É o que lhe dão, não o que você quer. Porque nem tudo cabe em você, tanto física como psicologicamente?. O apelo à saúde é, também, um dos discursos mais ouvidos por mulheres e homens considerados acima do peso. Entretanto, embora o Ministério da Saúde atente que 55,4% da população em Maceió está acima do peso, o que interfere geralmente em índices de hipertensão e diabetes, as mulheres do grupo esclarecem que é preciso não partir de julgamentos prévios.