Cidades
Mercado de trabalho exige muito mais delas
As histórias das quatro trabalhadoras e suas jornadas exaustivas não foram pescadas de maneira premeditada ? e tampouco são coincidência. Várias pesquisas têm composto um mosaico da realidade das mulheres no mundo do trabalho e, quase sempre, os dados não são animadores, ainda que pesem as variações de acordo com recortes de classe, raça, geração e das próprias categorias profissionais e de trabalho que são, por si, bem diversas. Assim, chega-se aos dados de que mulheres dedicam uma média de 21,8 horas semanais com trabalhos domésticos, enquanto homens dispensam uma média de 9,1 horas, segundo o IBGE. Já metade das mulheres deixou o emprego até um ano depois da licença-maternidade, segundo a Fundação Getulio Vargas. As mulheres (e homens) que não se dedicam ao serviço doméstico o transfere para mulheres mais pobres ? e assim o Brasil é o País que tem o maior número de domésticas do mundo, principal fonte de emprego para o gênero. As múltiplas habilidades requeridas ? em tempo curto, claro ? marcam as longas horas do dia para as mulheres em suas duplas e triplas jornadas. A professora de Psicologia da Universidade Federal de Alagoas Telma Low retrata que há dois conceitos importantes ao se pensar na inserção das mulheres dentro do mundo do trabalho: teto de cristal e solo pegajoso. ?O teto de cristal diz respeito à dificuldade das mulheres em ascender no mundo do trabalho para cargos de chefia. Assim, mesmo que o número de mulheres seja maioria em áreas como educação ou saúde, acaba sendo a minoria em cargos de reitoria?, relata. Essa questão, segundo a psicóloga, está vinculada às duplas e triplas jornadas impostas às mulheres diante de uma sociedade que, segundo ela, permanece machista apesar dos avanços. ?A tripla jornada impõe a dificuldade de produzirmos, de crescer e de dar conta de tudo e, aí, é como se esse lugar fosse próprio para os homens?, explica. Já o solo pegajoso diz respeito ao aprisionamento das mulheres em trabalhos relacionados ao cuidado. ?Nós, mulheres, somos atualmente as chefes de família, mas ainda é o homem que tem que ser considerado o provedor. Temos conquistado oportunidades no mundo do trabalho, mas, em momentos de crise, somos as primeiras a sofrer demissão?, comenta. ?Se estamos em entrevista de emprego, perguntam se vamos engravidar. São formas de controle direcionadas ao corpo da mulher, que vão gerando ansiedade, angústia, insegurança?, diz. *Sob supervisão da editoria de Cidades