Cidades
ÍNDIOS ALAGOANOS NÃO TÊM MOTIVOS PARA COMEMORAR
Mesmo com história reconhecida há mais de três séculos, existente antes mesmo de Alagoas se tornar independente da então capitania de Pernambuco e se transformar em Estado com seus 200 anos, os índios alagoanos vivem desde lá no esquecimento e no ataque constante por parte do poder público, que deixa de cumprir os direitos assegurados dos povos e, com isso, se mantém como o principal responsável por contribuir para a extinção das aldeias. Hoje, 19 de abril, é comemorado o Dia do Índio. A data já está consolidada, mas apenas pela força das etnias que ressurgiram, na luta pelo resgate, pela manutenção da própria cultura e na busca pelo pertencimento à terra é que podem, de fato, representar a existência dos indígenas em terras caetés. ?Não temos alegria quase nenhuma para comemorar a data. Temos um passado de um povo bom e pacífico, e não de violência, como a que foi praticada contra nós pelo ?homem branco? e que nos retirou das terras onde vivíamos. Estamos esquecidos pelo poder público?, lamenta José Ferreira dos Santos, índio descendente dos Xucuru-Kariri de Palmeira dos Índios. Para comemorar o dia dedicado aos povos indígenas, ele deve se unir hoje a outros indígenas em um toré, a dança tradicional de seus povos, em uma comunidade da zona rural da localidade. Ontem, fizeram apresentação no museu da cidade que leva o nome da etnia. Ferreira, também conhecido como Zinho, pode bem representar a realidade de praticamente a maioria dos índios alagoanos. Em 1872, conta em livro o historiador Jorge Vieira, o então presidente da província Luís Rômulo baixou decreto extinguindo na época 20 grupos indígenas existentes em Alagoas. Apesar desse ato ter ocorrido há 145 anos, essa realidade parece se manter até os dias atuais, com a tomada de terras antes pertencentes a esses povos. Como seus antepassados, os pais de Zinho foram expulsos da região de Atalaia, para que suas terras dessem lugar a plantações de cana. Jogados ao mundo sem apoio, conta ele, conseguiram chegar até os municípios de Quebrangulo e Paulo Jacinto, para morar na periferia da cidade. Ele, como segunda geração a partir dos pais e já com filhos e netos, vive praticamente o mesmo dilema. A diferença é que Ferreira conquistou um emprego de vigilante em Palmeira dos Índios e, com isso, consegue manter a família com sacrifício na periferia da terra dos Xucuru--Kariri, embora seu desejo fosse o de morar na própria aldeia, a Mata da Cafurna. ?Como tenho que me deslocar para o trabalho, precisava pagar R$ 10 para subir ou descer a serra de moto?, cita ele, ao se referir a somente uma das dificuldades que enfrenta. Para além dessas questões comuns a todos os alagoanos de baixa renda, os indígenas acabam por ser mais afetados pela ausência de serviços públicos em suas comunidades e, principalmente, pelo descumprimento de seus direitos assegurados na Constituição.