Cidades
Fase de adaptação exige maior cuidado

É comum sentir medo durante a fase de adaptação tanto para os pais quanto para as crianças. Conforme a psicóloga, o medo dos pais se destaca pelo receio da má adaptação da criança ao ambiente familiar e pelo receio de não serem aceitos como os novos pais. Já a criança teme por não ser amada e sofrer novo abandono. ?Os pais também sentem medo que as crianças venham com traumas que reflitam em suas relações e manifestem comportamentos de uma rejeição a nova vida. Já em relação à criança, existe o medo de não ser amada, de ser abandonada novamente, de sofrer novamente traumas já vividos em sua família de origem?. É importante que a criança sinta confiança nos novos pais e acolhida por toda a família, que muitas vezes inclui irmãos que são filhos biológicos do casal. Ter acompanhamento de um psicólogo durante toda a fase da adoção pode ajudar na construção da nova família. ?O acompanhamento psicológico é importante por diversos motivos, desde a nos fazer entender que peso tem a adoção para a família, auxiliando no processo de como lidar, o que fazer e como proceder em determinadas situações, principalmente no início onde a vinda da criança ainda é uma novidade. É importante salientar que não existe qualquer motivo para patologizar a adoção, é importante, sim, reconhecer que alguns pais vão sentir dificuldades em determinados momentos, que a criança ou o adolescente pode desenvolver algum sintoma em consequência de traumas vividos em seu passado, negligência ou abandono, porém isso não é uma regra?. Em alguns casos que envolvem o acolhimento de adolescente, a carência afetiva pode acarretar uma mistura de sentimento por parte deles, confundindo os papéis da vida real assumida no propósito da adoção, com suas fantasias gerando por muitas vezes uma inadequação no convívio, esclarece a psicóloga e coordenadora do GAAAL, Fátima Malta. FRUSTRAÇÃO Mesmo com todo amor e dedicação dos novos pais, nem sempre a criança ou o adolescente consegue se adaptar à nova família. Às vezes parte dos pais adotivos a desistência do processo já no estágio de convivência (que pode durar um ano) e até mesmo casos em que a própria Justiça intervém, quando é verificada que a adoção pretendida não atende ao melhor interesse da criança e do adolescente. Nesses casos, a devolução da criança acarreta uma série de sentimentos de dúvida e rejeição e se cria um novo drama na vida dos envolvidos. Quando ocorre a devolução, inicia-se um novo processo de encontrar uma nova família ou um filho. Muitas vezes, esse fato gera uma frustração nos pais e um sentimento de revolta na criança. A assessora comercial Lígia Maria passou por toda a dor da devolução do casal de irmãos com o qual convivia havia quase um ano (o menino que tem 17 anos estava a poucos dias de completar um ano do estágio de convivência. A irmã dele, que tem 12 anos, estava na família havia 5 meses). Lígia conta que foi um processo doloroso para ela. ?Muitas vezes a questão da convivência é complicado. No meu caso, a menina não expõe sentimento algum, mas ela tem uma ferida muito grande no peito em relação à mãe biológica. Então, a dor dela, a gente sente que se transformou em raiva e desdém, ela não está nem aí para ninguém?. Ela alerta que é preciso que os pais estejam certos da decisão de adotar e que seja trabalhado o lado psicológico para que a história de vida da criança que é abandonada não se torne um empecilho na educação e na vivência durante o estágio de convivência. ?Umas das coisas que estragaram muito a minha convivência com as crianças foi que eu era muito permissiva. Achei que, pelo fato de eles serem adotados, tinham que ter privilégios a mais que os meus filhos biológicos e não é assim. Filho é filho?.