Cidades
Medicamento antiaids vira lixo químico
Fátima Almeida Medicamentos de alto custo, fabricados com dinheiro público, e que deveriam ser utilizados no coquetel antiaids, estão prontos para ser incinerados no Laboratório Industrial e Farmacêutico de Alagoas (Lifal). Eles perderam a validade por falta de compradores, o que denuncia um contra-senso, num país que importa medicamentos para o tratamento de portadores do HIV, o vírus da Aids. Com a ajuda de funcionários do laboratório que não se conformam com a situação, a Gazeta teve acesso a um dos armazéns do almoxarifado. Na câmara fria, pelo menos 30 caixas de Didanozino, item do coquetel antiaids, estão no rol dos produtos reprovados. Os medicamentos perderam a validade em outubro de 2004. De acordo com um funcionário do setor de compras, cada caixa custa R$ 2.500, o que significa R$ 75 mil transformados em lixo hospitalar. Não consigo entender. O Ministro da Saúde informa que o Brasil está importando itens do coquetel antiaids porque existem poucos fornecedores no mercado nacional. Nós fabricamos pelo menos dois itens (Didanosina e Indinavir) e somos um dos únicos laboratórios do País a fabricar o medicamento, mas no entanto não conseguimos vender, observa o funcionário Carlos Lorena, do setor de almoxarifado e produtos acabados. pronta entrega Segundo ele, o Lifal tem pelo menos dez lotes para pronta entrega, mas até agora não conseguiu assinar convênio com o ministério para distribuição. Eles estão complicando muito e o tempo está passando. Corremos o risco de perder também esses lotes, diz Carlos Lorena. A maior procupação, segundo Lorena, é que depois de quatro meses de fabricação, torna-se muito mais difícil vender os produtos, até para o próprio Ministério da Saúde. E eles foram fabricados em dezembro do ano passado. Os medicamentos do coquetel antiaids não são os únicos produtos encalhados no Lifal. Mais de 200 caixas, com 50 tubos cada, de Metronizadol (um creme vaginal muito procurado nos postos de saúde) perderão a validade em abril. O produto foi comprado de outros laboratórios há mais de dois anos, chegando a um volume de vendas de 2.200 caixas. ### Saúde estadual compra lá fora O preço de cada caixa do Metronizadol, que tem prazo vencendo em abril, segundo um funcionário do setor de compras, fica entre R$ 80 e R$ 100. Com a proximidade do fim do prazo, o Lifal tentou revender até pela metade do preço, mas não conseguiu. Devem ser doados para alguma secretaria, mas até assim fica difícil repassar o estoque em tão curto prazo, diz o funcionário. Lotes de remédios que faltam nos postos de saúde da rede pública também estão prestes a perder a validade sem encontrar comprador. Uma comissão de trabalhadores do Lifal lembra que há poucos dias a secretária estadual de Saúde, Kátia Born, declarou, em entrevista, que estava esperando a chegada de medicamentos para hipertensos comprados fora do Estado. Nós temos aqui em estoque o Propranol, Hidroclorotiazida e Captopril, todos para hipertensão, fabricados há um ano, sem saída. Só de Hidroclorotiazida são 12.342 caixas, cada uma com 500 comprimidos. Mas a secretaria preferiu comprar de outros estados, reclamam eles. Também na lista dos medicamentos encalhados no Lifal estão o Benzil, Dipirona, Sulfametoxazol. O presidente do laboratório, Marcos Omena, estava no Lifal, ontem pela manhã, mas recusou-se a conversar com a Gazeta. Ele ficou irritado com a presença da equipe e determinou sua retirada.