Cidades
Maceió não é área de risco para a doença de Chagas
Fátima Almeida As notícias de propagação da doença de Chagas por ingestão de caldo de cana, no sul do País, deixaram consumidores em alerta e a população temerosa, em Maceió. Enquanto os vendedores afirmam que houve queda no consumo do caldo, nas unidades de saúde a busca de informações sobre a doença aumentou nos últimos dias. Mas a boa notícia vem de especialistas: Maceió não é área de risco, porque o barbeiro que vive por aqui não transmite a doença de Chagas. Temos uma única espécie do inseto em Maceió, o triatoma rubrofasciata, que não tem nenhuma participação na transmissão da doença de Chagas ao homem, explica o médico veterinário Alfredo Dacal, professor da disciplina Parasitologia, na Escola de Ciências Médicas (Ecmal). No mapa da coordenação epidemiológica da Secretaria Executiva de Saúde (Sesau), a confirmação: Em Alagoas, pelo menos dez municípios, inclusive Maceió, são considerados indenes [livres de perigo], mostra o técnico Renan de Lima Souza, do programa de vigilância e controle da doença de Chagas da Sesau. A cada 100 insetos capturados no interior e trazidos para análise, encontramos dois ou três infectados, afirma o chefe do Laboratório da Ecmal, Edson Pacheco. Segundo o médico Euriberto Pereira, coordenador de Controle da doença de Chagas da Sesau, Alagoas nunca registrou, nos 30 anos de existência do programa, nenhuma notificação de caso agudo da doença. ### Alagoas não escapa do mal de Chagas O fato de o risco de contaminação estar afastado não significa que Alagoas seja um Estado livre do mal de Chagas. Pelo contrário, com um enorme déficit habitacional, que fomenta a manutenção de construções barreadas no interior do Estado, o terreno é propício à proliferação do barbeiro, o inseto vetor. O barbeiro, também conhecido como chupão e bicudo, é um inseto de hábitos noturnos, que se alimenta de sangue e vive em paredes esburacadas, coberturas de palha, forros e frestas das casas de madeira ou de barro, existentes em grande quantidade, sobretudo na zona rural. Mas o índice de transmissão é pequeno, segundo Euriberto Pereira, porque não existe em Alagoas a espécie triatoma infestans, considerada a mais perigosa, por ter maior capacidade de disseminação. De acordo com o mapeamento da Sesau, Alagoas possui 28 municípios na zona da Mata em vigilância epidemiológica, e 54 municípios endêmicos (mais da metade do Estado), onde o trabalho de controle é mais intenso. As áreas de maior risco, segundo o a Vigilância Epidemiológica, estão nas regiões do Agreste e Sertão, onde o clima quente favorece a proliferação do triatoma brasiliensis, uma das espécies vetoras mais encontradas em Alagoas. O litoral Norte, segundo Euriberto Pereira, já foi área problemática. Tem muita gente com a forma crônica da doença, mas hoje não é considerada área de risco de contaminação. A transmissão da doença de Chagas por ingestão de alimentos, como aconteceu com o caldo de cana em Santa Catarina, é considerado um acidente raríssimo, segundo o médico Alfredo Dacal. O caldo não é um meio de cultura para o protozoário Tryponozoma Cruzi, diz ele. ### Doença causa morte súbita em brasileiros A doença de Chagas é uma das principais causas de morte súbita, segundo Alfredo Dacal. A parasitose causada pelo protozoário Trypanosoma Cruzi pode levar à morte em pouco mais de um mês, em sua forma aguda, mas também pode agir no organismo humano durante anos, causando lesões cardíacas ou nas células nervosas. Para se ter uma idéia, Dacal lembra que quando ela foi descoberta pelo brasileiro Carlos Chagas, no início do século passado, a portadora era uma criança de dois anos, que morreu com mais de 80 anos. As consequências mais graves da doença são o crescimento de órgãos vitais como o coração, o esôfago e o intestino. A doença de Chagas é considerada uma endemia rural, típica dos países do terceiro mundo, sobretudo nas regiões onde as condições habitacionais são precárias. Aos poucos ela foi se urbanizando devido à devastação das matas e a migração do camponeses para as cidades. Desde a sua descoberta, em 1909, até os dias de hoje, a melhoria das condições habitacionais como indicativo no controle da doença de Chagas é praticamente um consenso entre especialistas do mundo inteiro. Rebocar as paredes, fechar brechas e frestas, limpar atrás de quadros, embaixo dos colchões e das camas, remover entulhos de madeira que possam servir de esconderijo para o inseto são algumas recomendações para evitar a sua presença. Se alguém for picado e o inseto encontrado, deve ser capturado vivo entregue no postos de saúde, para que seja encaminhado para exame e ter a casa detetizada para que o barbeiro não volte.